RESENHA: PEÇA DE HUGO POSSOLO FAZ RETRATO DO HOMEM URBANO

Maurício Mellone * (redacao@aplausobrasil.com)

ATÉ QUE DEUS É UM VENTILADOR DE TETO
ATÉ QUE DEUS É UM VENTILADOR DE TETO

SÃO PAULO – Em temporada curta que termina no próximo dia 13, no Espaço Cênico do SESC Pompeia, a peça inédita de Hugo Possolo — que divide o palco com seu companheiro do grupo Parlapatões, Raul Barretto —, Até que deus é um ventilador de teto faz um recorte na vida de um homem urbano de classe média que, mesmo estando conectado com o mundo, se vê ilhado com tantos afazeres e afastado da família. Morador de São Paulo, casado e com um filho de 18 anos que faz intercâmbio no exterior, ele é um jornalista de 50 anos que na solidão da redação ou em seu carro faz divagações sobre a existência, sobre suas crenças e sua relação com o mundo, mesclando realidade e imaginação. Imagina que um velho morador de rua pode ser Deus que vigia seus passos.

Ao entrar, o espectador já dá de cara com o personagem (Possolo) sentado numa espécie de aquário de acrílico transparente. Este espaço funciona tanto como a redação onde ele trabalha quanto o automóvel: é ali que produz uma infinidade de artigos, fala com a mulher pelo celular, com o filho pelo computador e também dirige pelas ruas de Sampa.

A única pessoa com que ele dialoga é o velho morador de rua (Barretto): todo dia no mesmo cruzamento eles trocam algumas palavras. Em seus devaneios, ele imagina que o velho possa ser Deus que vigia seus passos.

Outro elemento perturbador é o imenso anzol, que logo no início do espetáculo desce do teto vagarosamente enquanto o homem inicia uma série de questionamentos sobre vida, morte, tentações, religiosidade e até sobre os sentidos de determinadas palavras e termos.

De forma ágil e ao mesmo tempo naturalmente, o personagem vai de suas imaginações e divagações para o pragmatismo e a realidade, em que discute com a mulher e o filho sobre os fatos do dia a dia e até posturas diante da vida. E neste embate com o real que ele é sequestrado e, no cativeiro, é vigiado pelo morador de rua.

Além da solidão, muito comum a todos que vivemos nas metrópoles, o personagem é posto à prova e tem de saber lidar com a violência urbana. Já em liberdade, as inquietações, conflitos internos e a incongruências humanas chegam ao limite para ele.

“Esse homem, cansado de tantas relações virtuais e do esvaziamento de sentido da vida, é catapultado para reflexões metafísicas que misturam o risco da vida real com delírios de sua cabeça”, argumenta o diretor Pedro Granato.

ATÉ QUE DEUS É UM VENTILADOR DE TETO
ATÉ QUE DEUS É UM VENTILADOR DE TETO

Até que deus é um ventilador de teto retrata um homem de meia idade inserido no mundo contemporâneo: apesar das conquistas tecnológicas e do avanço das comunicações, ele permanece só, com dúvidas existenciais e deslocado da realidade que o rodeia.

São 60 minutos intensos, que provocam angústia e reflexão sobre o nosso dia a dia. Saí do espetáculo atônito e muito identificado com aquele jornalista cinquentão e extremamente reflexivo.

Destaque para toda a produção: cenário, iluminação e trilha conduzem o espectador para o drama vivido por aquele homem. E a entrega de Hugo Possolo ao personagem emociona: sua veia cômica é mais do que conhecida e reconhecida, mas, assim como em sua peça Eu Cão Eu, ele mostra vigor e verdade na composição de personagens densos e dramáticos. Mais um grande momento em sua carreira.

 

* Maurício Mellone publicou o texto no www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

 

Roteiro:
Até que deus é um ventilador de teto
Texto: Hugo Possolo. Direção: Pedro Granato. Elenco: Hugo Possolo e Raul Barretto. Cenografia: Diego Dac e Saulo Santos / Ateliê Russo. Figurinos: Cláudia Shapira. Iluminação: Aline Santini.Trilha sonora: Raul Teixeira. Fotografia: José de Holanda.  Produção executiva: Erika Horn. Produção: Parlapatões.
Serviço:
Sesc Pompeia/Espaço Cênico (40 lugares), Rua Clélia, 93, tel. 11 3871-7700. Horários: de quinta a sábado às 21h e domingo às 19h. Ingressos: $ 25 inteira, $ 12,50 (usuário SESC, pessoas com mais de 60 anos, estudante e professores da rede pública) e $ 7,50 (matriculado no SESC e dependentes). Venda: rede ingressosesc. Duração: 60 min. Classificação: 14 anos. Temporada: até 13 de setembro.

 

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