RESENHA: PEÇA DE PLÍNIO MARCOS DISCUTE SEXUALIDADE FEMININA

Maurício Mellone * (redacao@aplausobrasil.com.br)

“O Bote da Loba”. Foto: divulgação.

SÃO PAULO –  Depois do sucesso de público a primeira montagem de O Bote da Loba, peça escrita por Plínio Marcos dois anos antes de sua morte, tem a temporada estendida até o final de fevereiro. O espetáculo é dirigido por Marcos Loureiro e se passa numa sessão de tarô, em que a cigana vidente Veriska, interpretada por Anette Naiman, tem a missão de recuperar sua paciente Laura, vivida por Luciana Caruso, uma mulher da alta sociedade, casada e que reclama de depressão e dores abdominais. Na realidade, ela é reprimida sexualmente e a cigana, com seus poderes místicos, tenta ajudá-la a se libertar de tanta repressão, machismo e conceitos internalizados de uma sociedade patriarcal.

A peça começa com Laura deitada numa espécie de divã, falando ininterruptamente sobre sua depressão, suas dores, angústias e sofrimentos. A cigana, sentada à direita da paciente, é só ouvidos, até o momento que não suporta mais tanta lamentação e dá um basta. Laura se assusta com a investida da vidente, que é incisiva e aplica algumas de suas técnicas para acalmá-la. Mas precisa saber se a paciente quer mesmo ser ajudada; com o consentimento, Veriska dá o diagnóstico certeiro: Laura necessita mesmo se libertar de suas amarras sexuais, abandonar aquela postura de só se submeter ao marido, sem nunca ter chegado ao orgasmo. Tudo dito de forma ríspida e até agressiva para que a paciente se conscientize de sua realidade e pare de mentir para si mesma.

“Plínio Marcos foi um homem de seu tempo, retratou a visão da sociedade de sua época. Por isto seus textos tornaram-se clássicos da dramaturgia brasileira, pois revelam valores, costumes e pensamentos da sociedade. Nesta peça, o prazer feminino, reprimido até hoje, é discutido abertamente por Plínio”, esclarece Anette Naiman.

O que sobressai no espetáculo é a sintonia entre as atrizes, principalmente nas cenas em que há embates entre a cigana e a paciente, até o desfecho surpreendente. Tanto Anette como Luciana têm chance de mostrar as diversas facetas das personagens. No entanto, a sala do teatro em que acontece a montagem (Caixa Preta, de apenas 30 lugares) não favorece a performance das atrizes. Em determinadas marcações de palco definidas pela direção, uma atriz impede que alguns espectadores possam assistir adequadamente o desempenho de sua companheira de cena.
O texto de Plínio Marcos, mesmo um pouco datado (será que hoje ainda há tantas mulheres reprimidas sexualmente como a personagem da trama?), toca em temas de extrema importância, independentemente do período histórico. Machismo, submissão feminina, violência doméstica, intolerância e preconceito devem ser sempre combatidos.

* Maurício Mellone publicou o texto no www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

 

Roteiro:
O Bote da Loba
. Texto: Plínio Marcos. Direção, iluminação e trilha sonora: Marcos Loureiro. Elenco: Anette Naiman e Luciana Caruso. Cenografia: Anette Naiman e Marcos Loureiro. Figurino: as atrizes. Fotografia: Gal Oppido.
Serviço:
Teatro Garagem (30 lugares), Rua Silveira Rodrigues, 331ª, tel. 11 99122-8696. Horários: todas as sextas de fevereiro às 21h. Ingressos: R$ 40 e R$ 20. Bilheteria: uma hora antes do início da sessão. Duração: 60 min. Classificação: 16 anos. Temporada: até 24 de fevereiro.

Kyra Piscitelli

Kyra Piscitelli é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e fez pós-graduação em Globalização e Cultura pela Faculdade de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Escreve sobre teatro e arte desde de 2009. Integra os Juris da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e do Prêmio Aplauso Brasil. Ávida por conhecimento, se não está em viagem ou estudo, só há um lugar para achá-la: o teatro!

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