RESENHA: PEÇA DE ZEN SALLES, TRATA DE TEMAS TABUS, COMO PEDOFILIA E DESEJO REPRIMIDO

Maurício Mellone * (redacao@aplausobrasil.com)

TADZIO
TADZIO

SÃO PAULO – Depois do sucesso de Genet o poeta ladrão, o jornalista e dramaturgo maranhense Zen Salles retoma a cena com Tadzio. De acordo com o autor, a peça foi escrita antes de Genet, mas só agora é encenada e tem leve inspiração no livro clássico de Thomas Mann, Morte em Veneza. Ao invés de um escritor nutrir forte paixão por um garoto de 13 anos, Zen deslocou o foco para dentro da igreja católica, em que um padre sente atração por um jovem rapaz, filho de uma beata. Com direção de Dan Rosseto, o elenco é formado por André Grecco (o padre), Thalles Cabral (Tadzio) e Nélida Lima (mãe do garoto).

A história é contada a partir do ponto de vista de Tadzio (Thalles): já adulto e ao se ordenar padre, ele relembra em tom de confissão o fascínio que, quando garoto, sentia pelo padre Enoque (André), que acabara de chegar ao vilarejo onde morava com sua mãe (Nélida), uma devota beata, que frequentava a missa duas vezes ao dia!

Por ser obrigado pela mãe a acompanhá-la à igreja diariamente, o garoto começa a participar das atividades da paróquia e a proximidade com o padre é inevitável. Se Enoque sentia atração e desejo pela beleza e pelo vigor juvenil de Tadzio, com o garoto a história não era diferente — desejo, sedução e atração eram sentidos por ambos.

O enredo, por se basear nas memórias de adolescência, traz uma magia e dubiedade que instigam o espectador: o que de fato aconteceu entre o padre e Tadzio? Tudo não passou da imaginação do garoto? E a simples possibilidade do envolvimento entre um padre e um garoto provoca uma reação violenta, moralista e desastrosa na pequena comunidade local.

TADZIO
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Além de tocar em temas tabus como pedofilia dentro da igreja, Tadzio também trata de um problema sério na sociedade contemporânea: o julgamento precipitado que pode provocar danos irreparáveis às pessoas. As redes sociais estão repletas de comentários raivosos, preconceituosos e julgamentos sem qualquer fundamentação, que na maioria das vezes ficam impunes mesmo depois de terem atingido ferozmente às pessoas, que nem sequer puderam se defender ou que a verdade tenha vindo à tona.

Além da interpretação tocante de Thalles Cabral e André Grecco, que se entregam totalmente aos personagens e à trama (belas cenas de masturbações, com as fantasias às soltas), Tadzio merece destaque também pelo trabalho de Kleber Montanheiro, que assina os figurinos, a sensível iluminação e o cenário de extrema praticidade e funcionalidade.
* Maurício Mellone publicou o texto no www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

 

Roteiro:
Tadzio
.Texto: Zen Salles. Direção: Dan Rosseto. Elenco: André Grecco, Thalles Cabral e Nélida Lima. Trilha sonora: Fred Silveira. Cenário, figurino e iluminação: Kleber Montanheiro. Fotografia: Rafael Petri. Direção de produção: André Grecco. Produção Executiva: Rafael Petri. Realização: Cão Bravo Produções e Applauzo Produções Artísticas.
Serviço:
Espaço Parlapatões (98 lugares), Pr. Franklin Roosevelt, 158, tel. (11) 3258-4449. Horário: sábado, à meia-noite. Ingressos: R$ 30,00 e R$ 15,00 (meia-entrada). Bilheteria: de terça a domingo, das 16h às 22h. Vendas: www.ingressorapido.com.br ou telefone: 4003-1212. Aceitam-se todos os cartões. Duração: 70 min. Classificação: 16 anos. Temporada: até 27 de junho.