RESENHA: PEÇA ESCRITA E DIRIGIDA POR OTÁVIO MARTINS INCITA À REFLEXÃO

Maurício Mellone * (redacao@aplausobrasil.com)

PERGUNTE AO TEMPO
PERGUNTE AO TEMPO

SÃO PAULO – Com uma dramaturgia densa e profunda, Pergunte ao Tempo propõe uma reflexão sobre a vida, a morte, a memória e, fundamentalmente, sobre o tempo e como lidar com ele.

Numa noite de Réveillon, meia hora antes da chegada do ano novo, um rapaz, vivido por Giovani Tozi, começa a se questionar sobre o que aconteceu com ele e com sua namorada, interpretada por Guta Ruiz. Fatos do passado vêm à tona e tanto a garota como um senhor mal-humorado, papel de Luiz Damasceno, esclarecem e ao mesmo tempo omitem algumas passagens, o que obriga o rapaz a fazer uma verdadeira análise de sua própria existência.

O espetáculo tem início e a plateia começa a ouvir pingos d’água; no escuro, somente com o auxílio de uma lanterna, o rapaz quer saber onde está, questiona seus gostos (diz que há tempos não come e até se esqueceu do sabor dos alimentos) e pergunta por fatos ocorridos em sua vida no passado. Aparece então, também na penumbra, só com outra lanterna, a garota que tenta responder as indagações do rapaz, que na verdade foi seu namorado. Para deixar ainda mais nebulosa a situação, surge um velho que também elucida fatos da trajetória do rapaz, mas traz outras dúvidas sobre o presente, o passado, o futuro, pondo em questão a noção de tempo e espaço.

Quem são realmente aqueles personagens, qual a relação entre eles, tudo aquilo não passa de imaginação do rapaz, serão as memórias dele ou relatos do que aconteceu na verdade. Estes questionamentos movem toda a trama e precisam ser desvendados pelo espectador no decorrer da peça.

No programa, o autor, que assina também a direção do espetáculo, confessa que seu texto é dedicado ao pai, que faleceu este ano de Alzheimer:

“Esta peça é uma viagem nesse universo obscuro em que a imaginação e a consciência se misturam com a memória. Este texto é uma homenagem à memória de meu pai. Agradeço cada traço herdado, por tudo que não dissemos um ao outro, por todo nervo exposto, por toda a trajetória: obrigado, pai”, exclama Otávio Martins.

A concepção cênica do espetáculo é o que mais me chamou a atenção: o rapaz profere suas dúvidas e questionamentos numa mesa no centro do palco, que é cercada por água e luzes; depois deste círculo há uma cortina transparente, que isola a cena do restante do palco. A transposição desta cortina provoca a ruptura entre o imaginário e a realidade. O cenário de Cássio Brasil, a iluminação de Pedro Garrafa e a trilha sonora original de Ricardo Severo estão intimamente interligados e conectados à proposta da direção. A interpretação visceral de Luiz Damasceno em comunhão com a atuação de Giovani Tozi e Guta Ruiz completam este espetáculo reflexivo e provocador de grande impacto no espectador. Impossível sair incólume do teatro.

* Maurício Mellone publicou o texto no www.favodomellone.com.br – parceiro

"Pergunte ao Tempo". Foto/crédito: divulgação.
“Pergunte ao Tempo”. Foto/crédito: divulgação.

do Aplauso Brasil


Roteiro:
Pergunte aoTempo. Texto e direção: Otavio Martins. Elenco: Luiz Damasceno, Giovani Tozi e Guta Ruiz. Cenário e figurino: Cassio Brasil. Direção musical: Ricardo Severo. Iluminação: Pedro Garrafa. Produção: Rodrigo Velloni. Fotografia: Priscila Prade. Produção executiva: Adriana Souza.
Serviço:
Centro Cultural Banco do Brasil (130 lugares), Rua Álvares Penteado, 112, tel: (11) 3113.3651/52. Horários: segunda e quarta às 20h e domingo às 19h. Ingressos: R$ 10,00 (meia R$ 5,00). Bilheteria: das 9h às 21h, de quarta a segunda. Duração: 75 min. Classificação: 14 anos. Temporada: até 16 de dezembro.