RESENHA: PEÇA INÉDITA DE RAJIV JOSEPH RETRATA 30 ANOS NA VIDA DE UM CASAL

Maurício Mellone * (redacao@aplausobrasil.com)

PLAYGROUND
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SÃO PAULO – O jovem e premiado dramaturgo norte-americano Rajiv Joseph pela primeira vez tem uma de suas peças encenadas no Brasil. Com direção de Marco Antônio Pâmio, Playground é um retrato da vida tumultuada de Karina e Daniel, que por mais de 30 anos têm vários encontros, sempre marcados (literalmente) por muita dor, angústia e uma incomum atração. Eles se conhecem ainda na infância, exatamente no ambulatório da escola: Daniel, interpretado por Mateus Monteiro, todo machucado vai em busca de curativos e encontra Karina, vivida por Lara Hassum, que sofre de dores no estômago. Este primeiro encontro é um reflexo do que eles viverão em suas vidas: o destemido rapaz não para de arriscar-se, sempre causando danos físicos, enquanto a moça somatiza angústias e traumas em problemas estomacais, automutilando-se. Dor e cicatrizes (físicas e emocionais) são o que caracterizam a relação deste casal, que provoca no espectador tanto uma atração como um distanciamento reflexivo.

Com uma linguagem ágil e um jogo dramático intenso, o público é surpreendido a cada cena, cada uma delas revelando um momento da vida daqueles personagens. De forma não linear, a história dá saltos, às vezes 20 anos a mais, outras 10 anos antes e o espectador aos poucos vai criando a linha do tempo e o percurso emocional de Karina e Daniel.

Mais do que conseguir traçar um perfil dos personagens — Daniel, um rapaz autodestrutivo e que vive colocando a vida em risco e Karina, uma mulher angustiada, mas que consegue curar as dores do amigo —, o espectador ora se identifica com a trajetória deles, ora se distancia e procura respostas para tanta dor, sofrimento e cicatrizes.

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“Diante de material tão rico como a carpintaria dramática de Rajiv Joseph, nosso norte ao longo do processo de criação foi o de honrar a dramaturgia de maneira plena, tornando Karina e Daniel seres humanos de carne e osso. Quisemos vasculhar como as feridas dos personagens traduzem metaforicamente o que tanto os machuca e lhes faz doer por dentro”, explica Marco Antônio Pâmio no programa da peça.

Com poucos elementos cênicos (macas de hospital, cadeiras e pequenas mesas dispostas pelos atores em cada cena), a montagem prende a atenção do público graças ao jogo proposto pelo dramaturgo, em que a cada encontro é preciso saber o que aconteceu na vida de Daniel e Karina e o que motivou a separação deles.

Playground se destaca ainda pela direção precisa e pelas marcações em cena muito bem definidas (para isso o trabalho de contrarregra tem papel fundamental). A interpretação visceral, tanto de Mateus Monteiro como de Lara Hassum, é outro elemento a ser ressaltado: impossível o espectador não se emocionar com o grau de entrega e dedicação em cena da dupla de atores.
* Maurício Mellone publicou o texto no www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

 

Roteiro:
Playground
. Texto: Rajiv Joseph. Direção: Marco Antônio Pâmio. Assistente de direção: Gonzaga Pedrosa. Elenco: Lara Hassum e Mateus Monteiro. Cenário e figurino: Cassio Brasil. Iluminação: Aline Santini. Trilha sonora: Gregory Slivar. Fotografia: Leekyung Kim. Produção Executiva: Larissa Barbosa. Produção: Canto Produções.
Serviço:

Viga Espaço Cênico (80 lugares), Rua Capote Valente, 1323. Horários: sexta às 21h30, sábado às 21h e domingos às 19h. Ingressos: R$ 40,00. Duração: 80 minutos. Classificação: 12 anos. Temporada: até 29 de maio.

 

 

 

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.