RESENHA: PEÇA INGLESA FAZ RADIOGRAFIA DOS BASTIDORES DO MUNDO CORPORATIVO

SÃO PAULO – Com o característico humor negro inglês, Bull, trama do dramaturgo britânico Mike Bartlett, faz uma radiografia das relações de trabalho do competitivo mundo corporativo contemporâneo, em que as rivalidades, os conflitos e o jogo de interesses entre membros de uma equipe de trabalho de um conglomerado empresarial vêm à tona numa reunião para avaliação de desempenho dos negócios. Um dos funcionários se mostra mais frágil e os outros dois aproveitam da situação para deixá-lo ainda mais inseguro. Todos esperam pela chegada do chefe, que irá anunciar cortes na equipe. Com direção de Flavio Tolezani e Eduardo Muniz, o elenco é formado de Cynthia Falabella, Bruno Guida, Gustavo Haddad e Gustavo Trestini.

Com poucos elementos cenográficos — três cadeiras e dois aparadores de mesa —, a montagem está focada na disputa entre os três funcionários da equipe de trabalho, tanto que a delimitação cênica se parece com um ringue de boxe (os personagens, dois a dois, fazem verdadeiras lutas verbais, num movimento de boxeadores).

A peça tem início com a entrada de Lino (Bruno) na sala de reunião da empresa; nervoso ele não para de olhar para o relógio. Sem que ele a veja, Isabella (Cynthia) entra e já começa a menosprezá-lo, implicando com seu terno. Da mesma forma, Toni (Haddad) é o terceiro a chegar e concorda com a companheira, dizendo que Lino escolheu o pior figurino para uma reunião de avaliação de desempenho.

As discussões não têm limites e cada um procura apontar os defeitos e limitações dos outros, não se restringindo ao desempenho profissional; apelam inclusive para a vida íntima dos companheiros de trabalho. Mas Lino é o que mais sofre, até a chegada de Cesar (Trestini), o chefe, que ao invés de tentar apaziguar os ânimos, põe mais lenha na fogueira da discussão. Cesar, no entanto, é pragmático e, sem rodeios, comunica o corte de pessoal; em seguida deixa a sala e os três funcionários, num misto de alegria, tristeza, gozo e masoquismo, intensificam os ataques pessoais.

O texto de Mike Bartlett — mesmo autor da peça Contrações encenada recentemente pelo Grupo 3 de Teatro —, além de mostrar os bastidores do mundo corporativo, não dá brecha para uma reação ou contraposição ao modo de agir autoritário do patronato.

Escancara a falta de pudor e ética com que os funcionários agem entre si, o que é enfatizado pela direção. No embate final, um dos personagens deixa o ‘ringue’ e senta-se na plateia, com as luzes todas acesas, numa clara alusão à identificação do público à degradação exposta em cena. Espetáculo de uma crítica ácida às relações de trabalho no mundo corporativo contemporâneo. Destaque ainda para o entrosamento e a performance dos quatro atores. Confira.

Fotos: Flavio Tolezani

Roteiro:
Bull. Texto: Mike Bartlett. Tradução: Eduardo Muniz. Concepção e direção: Eduardo Muniz e Flávio Tolezani. Assistente de direção: Mateus Monteiro. Elenco: Bruno Guida, Cynthia Falabella, Gustavo Haddad, Gustavo Trestini. Figurino: Fernanda Kenan. Designer: Kelson Spalato. Fotografia: Flavio Tolezani. Direção de produção: Bruno Guida. Realização: Pitaco Produções.

Serviço:
Viga Espaço Cênico (73 lugares), Rua Capote Valente, 1323, tel. 11 3801-1843. Horários: sábado às 21h e domingo às 19h. Ingressos: R$ 50 e R$ 25. Duração: 55 minutos. Classificação 14 anos. Temporada: até 29 de outubro.

Maurício Mellone publicou o texto no www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

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