RESENHA: PEÇA RECONSTITUI UNIVERSO DE CAIO FERNANDO ABREU

Maurício Mellone * (redacao@aplausobrasil.com)

AMARELO DISTANTE
AMARELO DISTANTE

SÃO PAULO – Tendo como base os contos de Caio Fernando Abreu — Lixo e Purpurina e Anotações sobre um amor urbano, Kiko Rieser, com Amarelo Distante, construiu um espetáculo minimalista sobre a trajetória de um jovem que na década de 1970 resolveu deixar o Brasil e se autoexilar em Londres.

Num espaço limitado, sem qualquer elemento cênico e com pouca luz, o ator Mateus Monteiro interpreta este personagem solitário, cheio de angústias e inquietações e que procura sobreviver num país desconhecido, muito frio e longe de todos aqueles que ama.

O fio condutor da trama é o diário escrito por Caio F., que traz passagens reais e outras de pura ficção, quando viveu por mais de dois anos na capital britânica. A estreia do espetáculo foi escolhida com o intuito de prestar mais uma homenagem ao escritor gaúcho, que faleceu há exatamente 20 anos, dia 25 de fevereiro de 1996.

“Eu quis morrer, quis ir embora, quis perder para sempre a memória, estas memórias de sangue e rosas, drogas e arame farpado, príncipes e panos indianos, roubos e fadas, lixo e purpurina.”

O ator entra na penumbra e inicia seu relato ainda no escuro; aos poucos vai iluminando o espaço com pequenos focos de luz de uma lanterna. Mas a iluminação, assinada por Karine Spuri, permanece diminuta durante toda a encenação, numa referência ao ambiente sombrio e nebuloso onde vive o personagem.

           Esse lixo espalhado pela casa são os nossos sonhos usados, gastos, perdidos.

AMARELO DISTANTE
AMARELO DISTANTE

O enredo é uma mescla dos dois contos do escritor, mas segue a linha narrativa do diário. Segundo Rieser (que assina a direção também), “a dramaturgia narra os percalços e demais acontecimentos do autoexílio em Londres, intercalando-os com evocações de diferentes amores do personagem — do presente, do passado e quiçá do futuro”.

Evocar o universo de Caio Fernando mesmo depois de duas décadas de sua morte, sem dúvida, é o grande trunfo do espetáculo. O escritor que fala direto ao leitor, de forma coloquial, está vivo até hoje. E esta proximidade com a juventude atual se dá, além das questões existenciais, as angústias e as dores de amor propostas por Caio, graças à atuação de Mateus Monteiro, que imprime verdade e vigor para aquele jovem inquieto, intenso e autoquestionador da trama.

Um espetáculo denso, reflexivo que faz jus a que se propôs: homenagear Caio F. A espécie de oração dita ao final da peça (extraída do conto Lixo e Purpurina) emociona qualquer um e reforça a simbiose com público.

Que eu não perca a capacidade de amar, de ver, de sentir. Que eu continue alerta.
Que eu não me perca, que eu não me fira, que não me firam, que eu não fira ninguém. Livra-me dos poços e dos becos de mim, Senhor”.

* Maurício Mellone publicou o texto no www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

 

Roteiro:
Amarelo Distante. Texto: Kiko Rieser, baseado em contos de Caio Fernando Abreu. Direção: Kiko Rieser. Elenco: Mateus Monteiro. Figurino e ambientação cenográfica: Cássio Brasil. Iluminação: Karine Spuri. Trilha sonora: Vanessa Bumagny. Fotografia: Heloísa Bortz. Arte gráfica: David Schumaker. Produção: Kiko Rieser. Realização: Rieser Produções Artísticas.
Serviço:
Teatro Augusta/ Sala Experimental (50 lugares), Rua Augusta, 943, tel. 11 – 3151.4141. Horários: quartas e quintas às 21h. Ingressos: R$ 40. Bilheteria: de quarta a sexta das 14h às 21h30, sábado das 13h às 23h30 e domingo das 13h às 20h. Vendas:  compreingressos.com. Duração: 65 min. Classificação: 14 anos. Temporada: até 28 de abril.

 

 

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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