Resenha: primeira peça de Mario Viana ganha versão online


EM REDE – Autor de grandes sucessos nos palcos, a maioria deles comédias, Mario Viana surpreende o público agora com a montagem assinada por Gonzaga Pedrosa de sua primeira peça, escrita na década de 1980, Anna, inspirada na trágica história do escritor Euclides da Cunha. Em 1909 o autor de Os Sertões, movido por ciúme e rancor, procura o jovem cadete Dilermando de Assis, amante de sua mulher Anna, e tenta matá-lo, mas o rapaz, campeão de tiro, acerta dois tiros no escritor, que morre no ato. Este crime passional ficou conhecido como Tragédia de Piedade, bairro carioca onde tudo aconteceu.

A peça é livremente inspirada nestes trágicos acontecimentos, mas o foco central é na personagem que motivou o crime: Anna, viúva do escritor e posteriormente esposa de Dilermando. A trama se passa entre a realidade e a memória daquela mulher, vivida por Vera Lúcia Ribeiro, idealizadora do projeto. Transmissão gratuita online pela plataforma Youtube Veraluz Performance, diariamente até domingo, dia 16/05.

Como ainda estamos com teatros, cinemas e casas de espetáculos fechados em razão da pandemia da Covid-19, a montagem é um misto de teatro e cinema: o audiovisual gravado em preto e branco é definido pela própria equipe como um experimento pandêmico, já que a gravação foi realizada com cada ator em sua casa.

“Usamos a plataforma Zoom para os ensaios, para a definição dos enquadramentos. Para gravar, câmeras de celulares ou mini câmeras, com monitoramento via plataforma Zoom. As possibilidades de movimentos de cena são as possibilidades do confinamento das casas das atrizes e dos atores transbordadas no confinamento emocional e corporal das personagens, que culminam enquadrados em telas”, explica o diretor Gonzaga Pedrosa.

A cena inicial é com Anna dentro de uma banheira, cena  repetida ao final, o que pode sugerir que tudo se passa no mundo interior da personagem. Toda a narrativa da peça é do ponto de vista desta mulher que vivenciou fatos trágicos e traumáticos. Ela vive entre a realidade e sua memória, os fatos se confundem em sua mente atormentada com dores, desejos, angústias e culpas por tantas fatalidades. Tudo parece fantasmas para ela ao se relacionar com o marido Dilermando (Gustavo Moura), o cunhado Dinorah (Valdir Rivaben), o filho Sólon (Jonathan Well) e sua mãe Túlia (Selma Luchesi).

O drama de Anna de Assis, mesmo tendo ocorrido no início do século XX, infelizmente não está distante da realidade atual, pois continuamos com uma sociedade machista, conservadora e violenta.

“Anna foi vítima de uma sociedade formada por famílias conservadoras criadas nos regimentos dogmáticos das religiões institucionalizadas pelo poder masculino, o patriarcado consumado a partir da esfera entre religião e política. Me interessa na peça o aspecto do poder feminino e seu direito de exercer sua liberdade como lhe convier. Me interessa dar voz a mulher, ao seu direito de respeito como mulher, mãe e amante”, exalta Vera Lúcia Ribeiro.

Além do texto provocar reflexões profundas sobre o relacionamento humano, Anna tem uma produção ousada que prende a atenção do espectador. No entanto, a falta de equalização do som atrapalha o desenrolar da trama. Destaque para a bela composição de Vera Lúcia para o personagem título e a presença marcante de Selma Luchesi.

Roteiro:
Anna
. Texto: Mário Viana. Concepção e direção: Gonzaga Pedrosa. Direção de imagem: André Grynvask e Pri Argoud. Elenco: Vera Lúcia Ribeiro, Gustavo Moura, Valdir Rivaben, Jonathan Well e Selma Luchesi. Trilha sonora original e edição de áudio: Rafael Thomazini. Iluminação e fotografia: Heloísa Bortz. Figurino: Telumi Hellen. Idealização e produção: Veraluz Performance.
Serviço:
Transmissão online: Youtube Veraluz Performance. Horários: sábado e domingo às 20h. Ingressos: gratuitos. Duração: 100 min. Classificação: 14 anos. Temporada: até 16 de maio de 2021.

* Maurício Mellone publicou o texto no www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil