RESENHA: QUATRO MONÓLOGOS DE JÔ BILAC REFLETEM A FLUÊNCIA DO PENSAMENTO

Maurício Mellone * (redacao@aplausobrasil.com.br)

FLUXORAMA
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SÃO PAULO – Com direção Monique Gardenberg, Fluxorama, do dramaturgo carioca Jô Bilac, é o resultado de um processo de pesquisa dramatúrgica iniciado em 2009. O espetáculo, apresentado no SESC Ipiranga, é composto por quatro monólogos que procuram retratar a fluência mental do homem contemporâneo e a sua dificuldade de compreensão do mundo que o cerca.

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É a primeira vez que os quatro textos — Amanda interpretado por Juliana Galdino, Luiz Guilherme vivido por Luiz Henrique Nogueira, Valquíria por Marjorie Estiano e Medusa interpretado por Caco Ciocler — são apresentados em conjunto. A estreia com os três primeiros solos aconteceu no Rio em 2013, depois percorreu o mundo (Suécia, Inglaterra e EUA).

“A última parte deste projeto tem São Paulo como porto, onde comecei a escrever. A peça toma o ato de pensar como ponto de partida. O pensamento tem um fluxo performativo por si só, em diferentes dinâmicas, e constrói narrativas atravessadas pela relação dentro/fora da cabeça”, explica Jô Bilac.

FLUXORAMA
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Ao iniciar o espetáculo o público já sofre grande impacto, graças à ousadia da montagem: o cenário, assinado por Daniela Thomas e Felipe Tassara, é constituído por uma tela translúcida que percorre toda a boca de cena e recebe projeções, criando os ambientes de cada monólogo. Juliana Galdino é a primeira a se apresentar: sentada diante de uma mesa, Amanda relata seu drama de, num belo dia, ter amanhecido sem audição. Ela resolve omitir seu problema dos outros e se relaciona normalmente com todos, refletindo sobre sua existência. O texto questiona em que nível se dá a conversa dela com os demais. De que tipo de surdez ela sofre?

Luiz Henrique Nogueira interpreta um personagem que acaba de sofrer um terrível acidente de trânsito; preso às ferragens, ele procura manter a consciência, lembrando-se desde passagens corriqueiras da vida até questões mais existenciais. Como no texto anterior, em que nível acontece este fluxo mental? Em que momento há o desligamento do corpo?

,Já Marjorie Estiano vive uma maratonista que pela primeira vez se aventura a participar da Corrida de São Silvestre, pelas ruas de São Paulo. Num misto de humor e drama, ela em todo o percurso da corrida tenta refletir e buscar força interior para continuar sua batalha, tanto física como psíquica.

Caco Ciocler é o último a entrar em cena, na pele de um homem que, dentro do banheiro de sua casa, luta para meditar e alcançar o equilíbrio mental e espiritual, mesmo vivendo no caos das grandes metrópoles contemporâneas. Novamente o texto mescla ironia e graça com uma reflexão profunda da existência humana nos dias de hoje.

O grande destaque de Fluxorama sem dúvida é para a dramaturgia de Jô Bilac, que constrói um universo ao mesmo tempo factível e onírico. A montagem se valoriza com a perfeita sintonia entre a direção de Monique Gardenberg (que também assina a iluminação) e a cenografia de Daniela Thomas e Felipe Tassara. O nível de entrega dos atores para composição dos personagens é outro trunfo do espetáculo. O único senão fica para o quarto solo, que necessita de um pequeno ajuste do foco entre a projeção e a postura do ator em cena, o que não tira o brilho e o grande impacto da montagem. Saí do teatro refletindo muito sobre as questões levantadas pela peça, com uma identificação profunda com diversas de suas propostas. Uma das grandes atrações da cena teatral paulistana. Pena que a temporada é curta. Realmente não deixe de assistir.   

* Maurício Mellone publicou o texto no www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

 

Roteiro:
Fluxorama. Texto: Jô Bilac. Direção: Monique Gardenberg. Codireção: Michelle Matalon. Elenco: Caco Ciocler, Juliana Galdino, Luiz Henrique Nogueira e Marjorie Estiano. Trilha: Philip Glass. Cenário: Daniela Thomas. Figurino: Cassio Brasil. Iluminação: Monique Gardenberg. Fotografia: Caio Gallucci. Produção: Morente Forte. Realização: Sesc Ipiranga.

Serviço:

Sesc Ipiranga (200 lugares), Rua Bom Pastor, 822,  tel. 11 3340-2000. Horários: quinta e sexta às 21h, sábado às 19h e 21h e domingo às 18h. Ingressos: 12,00 a R$ 40,00. Bilheteria: de terça a sexta das 12h às 21h, sábado das 10h às 21h30 e domingo e feriado das 10h às 18h. Duração: 80 min. Classificação: 14 anos. Temporada: até 21 de agosto.

 

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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