RESENHA: RENATA SORRAH E CIA BRASILEIRA DE TEATRO ENCENAM LUTAS INTERNAS DE PERSONAGENS COMUNS

Maurício Mellone * (redacao@aplausobrasil.com)

KRUM
KRUM

SÃO PAULO – Depois da estreia carioca em janeiro, está em cartaz no SESC Consolação até o final de julho a peça Krum, texto do dramaturgo israelense Hanoch Levin encenado pela primeira vez no Brasil. A montagem é fruto de mais uma parceria entre a atriz Renata Sorrah e a Cia Brasileira de Teatro, que em 2012 já tinham encenado Esta Criança, de Joël Pommerat. Em 56 anos de vida, o autor, morto em 1999, conviveu com sete guerras. Esta triste experiência ficou, inevitavelmente, marcada em sua obra, principalmente nesta, em que retrata o cotidiano banal e comum das pessoas de uma pequena cidade que convivem com suas sofridas batalhas interiores.

O espetáculo tem início com o personagem central Krum, vivido por Danilo Grangheia, dizendo da plateia:

“Antes é preciso se preparar, armazenar forças, treinar, comer bem, dormir bem, fazer exercícios todas as manhãs…
E vou aparecer enfim novo e disposto. Pronto para recomeçar a viver. Ainda não. Eu vou fazer exercícios todas as manhãs. Só depois. Mais tarde.”

Este mesmo texto finaliza a peça, reforçando o tom de toda a trama: apesar de todas as agruras, as pessoas continuam a praticar suas tarefas cotidianas, a lutar com suas questões mais pungentes, suas dores, angústias, frustrações, medos e, principalmente, o desencanto diante da vida.

KRUM
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Krum volta para casa depois de ter vivido no estrangeiro, mas volta sem ter aprendido nada, volta tão vazio quanto antes. E lá encontra sua mãe, vivida por Grace Passô, sua antiga namorada Tudra, interpretada por Renata Sorrah, os amigos Tugati (Ranieri Gonzalez) e Dupa (Inez Viana), além do casal Felicia e Dolce (Cris Larin e Edson Rocha) lutando com suas corriqueiras contendas e embates interiores.

Há uma sucessão de fatos diante do espectador, com ênfase a dois casamentos e um funeral, mas o desconforto e a desilusão prevalecem.

“O fato de decidirmos montar uma peça de um autor israelense como Hanoch Levin num momento histórico como o nosso, de acirramento do conflito Israel-Palestina e de recrudescimento do pensamento conservador no Brasil é por si só significativo. Se como diz o personagem da peça, ‘para algumas pessoas a palavra impossível não é uma brincadeira’, para nós envolvidos nesta produção o mais importante é sermos realistas, é demandarmos justamente o impossível”, argumenta Patrick Pessoa, componente da Cia.

Saí do espetáculo com a sensação de ter levado um soco no estômago: Krum é um espetáculo árido, constrangedor e depressivo. No entanto provoca uma profunda reflexão de como encarar nosso conturbado, violento e intolerante mundo atual. Elenco coeso, numa produção muito bem cuidada; é sempre uma satisfação assistir Renata Sorrah em cena, uma atriz que se entrega visceralmente a seus personagens.
* Maurício Mellone publicou o texto no www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

 

Roteiro:
Krum. Texto: Hanoch Levin. Tradução: Giovana Soar. Adaptação: Marcio Abreu e Nadja Naira. Direção: Marcio Abreu. Elenco: Cris Larin, Danilo Grangheia, Edson Rocha, Grace Passô, Inez Viana, Ranieri Gonzalez, Renata Sorrah, Rodrigo Bolzan e Rodrigo Ferrarine. Cenário: Fernando Marés. Trilha e efeitos sonoros: Felipe Storino. Figurino: Ticiana Passos. Produção executiva: Isadora Floress.
Serviço:
SESC Consolação, Teatro Anchieta (280 lugares), Rua Dr. Vila Nova, 245, tel: 3234-3000. Horários: sexta e sábado, às 21h e domingos às 18h. Ingresso: R$ 40, R$ 20 (usuário matriculado) e R$ 12 (trabalhador no comércio e serviços matriculado).  Duração: 110 minutos. Classificação etária: 16 anos. Temporada: até 26 de julho.

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