RESENHA: ROBERTO LAGE DIRIGE ÚNICA PEÇA DE MILAN KUNDERA

Maurício Mellone * (redacao@aplausobrasil.com)

JACQUES E SEU AMO © Joao Caldas Fº
JACQUES E SEU AMO © Joao Caldas Fº

SÃO PAULO – Dez anos antes de lançar seu romance mais famoso — A Insustentável Leveza do Ser, Milan Kundera escreveu em 1971 sua única peça, Jacques e Seu Amo, que pela primeira vez é encenada no Brasil, sob a direção de Roberto Lage. O autor baseou-se no romance do filósofo francês Denis Diderot Jacques, Le Fataliste para contar a aventura do criado Jacques, vivido por Hugo Possolo, e seu amo (Edgar Bustamante), que viajam a esmo pelo mundo e contam suas experiências amorosas. O criado faz um relato detalhado de como perdeu sua virgindade, ao passo que seu amo diz como foi traído por seu melhor amigo. As duas histórias são bem parecidas, ambas envolvendo traição e atitudes hipócritas dos protagonistas.

Com cenário de Kleber Montanheiro (poucos elementos em madeira representando as construções), cada história se passa num canto do palco. No meio do caminho, amo e criado encontram uma taberneira tagarela (Renata Zhaneta), que não sossega até contar outra história, a de uma Duquesa, que sendo preterida por um nobre (Felipe Ramos), resolve se vingar e não descansa até casá-lo com uma prostituta, interpretada por Greta Antoine.

JACQUES E SEU AMO © Joao Caldas Fº
JACQUES E SEU AMO © Joao Caldas Fº

Além das três histórias serem contadas alternadamente, o espectador entra neste jogo narrativo de presente e passado e na brincadeira proposta por Kundera, que em diversas passagens faz com que o ator saia do personagem e critique o próprio autor. A crítica pode ser entendida também como se fosse dirigida ao Criador e à própria humanidade.

“Gosto muito da dramaturgia desta peça, da reflexão sobre o comportamento hipócrita do homem na sociedade. Em tempos modernos é delicioso trabalhar com um texto politicamente incorreto, um texto humanamente e naturalmente incorreto”, comenta Roberto Lage.

Primeira montagem no Brasil, Jacques e Seu Amo se destaca pela produção requintada, a minuciosa pesquisa da moda francesa do século XVIII para a confecção dos figurinos (Fabio Namatame), a iluminação de Wagner Freire (o truque de luz e som para criar a cadeia é sensacional), além da atuação contagiante e cúmplice de Hugo Possolo e Edgar Bustamante.

Único senão: assisti na estreia e o espetáculo necessita de um período ajuste; senti o final um pouco arrastado. No entanto, Possolo com sua veia cômica de palhaço ganha a plateia desde a primeira cena e o público se diverte.

 

* Maurício Mellone publicou o texto no www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

 

Roteiro:
Jacques e seu amo
. Texto: Milan Kundera. Tradução: Aline Meyer. Direção: Roberto Lage. Elenco: Hugo Possolo, Edgar Bustamante, Renata Zhaneta, Ando Camargo, Greta Antoine, Angelo Brandini e Felipe Ramos. Figurinos: Fabio Namatame. Cenografia e adereços: Kleber Montanheiro. Iluminação: Wagner Freire. Trilha sonora: Dr Morris. Fotografia: João Caldas. Projeto gráfico: Heron Medeiros. Vídeos: J. P. Rezek e Graziela Barduco. Direção de produção: Maurício Inafre.
Serviço:
Centro Cultural Banco do Brasil (130 lugares), Rua Álvares Penteado, 112, tel: (11) 3113.3651/52. Horários: quinta a sábado às 20h e domingo às 19h. Ingressos: R$ 10,00 (meia R$ 5,00). Bilheteria: das 9h às 21h, de quarta a segunda. Duração: 90 min. Classificação: 14 anos. Temporada: até 13 de dezembro.

 

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