RESENHA: ROSAMARIA MURTINHO CELEBRA 60 ANOS DE CARREIRA COM “RECRIAÇÃO” DE “DOROTÉIA”

SÃO PAULO – Depois de temporada carioca e turnê pelo país, está em cartaz na cidade Dorotéia, peça clássica de Nelson Rodrigues, escrita em 1949, que ganhou adaptação do diretor Jorge Farjalla, de Diogo Pasquim e da atriz Rosamaria Murtinho, que está festejando 60 anos de carreira. A trama central discute a supervalorização da beleza feminina por meio da trajetória da personagem título, vivida por Letícia Spiller, uma mulher muito bonita que deseja negar e destruir sua beleza. Para isto vai ao encontro de suas primas mais velhas — Dona Flávia interpretada por Rosamaria, Maura (Alexia Dechamps) e Carmelita (Jaqueline Farias) — com a intenção de se igualar à feiúra delas. Com direção e encenação de Farjalla, a montagem conta com um cenário encantador de José Dias (os espectadores se dividem entre o palco e a plateia) e 12 intérpretes em cena, sendo seis atrizes e seis músicos.

Dona Flávia, sua filha Maria das Dores (Anna Machado) e as outras duas primas já estão em cena quando os espectadores entram. A história de Nelson Rodrigues se passa nesta casa só de mulheres, que há 20 anos nenhum homem tem o direito de entrar e que as moradoras têm vida de privações.

A chegada de Dorotéia provoca uma revolução na vida destas puritanas, amargas e feias: muito bonita, ela pede abrigo às parentas, depois de ter abandonado a prostituição após a morte do filho pequeno. As primas abominam a vida sexual e amorosa de Dorotéia e para deixá-la ficar exigem que ela também se torne puritana e feia como elas. Dorotéia aceita as condições e procura se adaptar à nova vida, mas o desejo e sua propensão ao amor e à vida vão se chocar com as normas rígidas e autoritárias da matriarca Dona Flávia. Outra que rompe com a tirania daquele lar é a jovem Maria das Dores, que abandona o puritanismo e se entrega às delícias do amor e do sexo.

“A peça de Nelson trata do culto à beleza e do que ele representa. Mas há nas entrelinhas um objeto maior do que o da destruição dessa beleza (tema central da obra), que é o amor. Nos dias de hoje em que o amor virtual impera e o culto ao corpo sobrevive, Dorotéia bate à tua porta para te colocar frente a frente com o teu espelho. Você vai se olhar?”, indaga Jorge Farjalla.

Além da envolvente encenação, de belos figurinos, da maquiagem e visagismo impactantes e da trilha sonora executada ao vivo, o grande destaque fica para a interpretação das atrizes Letícia Spiller, Dida Camero, Anna Machado e da veterana Rosamaria Murtinho, que em plena forma domina a cena. Sem dúvida o grande presente para os 60 anos de carreira é a sua composição desta matriarca rodrigueana

Roteiro:
Dorotéia. Texto: Nelson Rodrigues. Direção e encenação: Jorge Farjalla. Dramaturgia: Rosamaria Murtinho, Jorge Farjalla e Diogo Pasquim. Elenco: Rosamaria Murtinho, Letícia Spiller, Alexia Dechamps, Anna Machado, Dida Camero e Jaqueline Farias, André Américo, Daniel Martins, Du Machado, Fernando Gajo, Pablo Vares e Rafael Kalil. Direção musical: João Paulo Mendonça. Produção. Direção de arte: José Dias. Figurinos: Lulu Areal. Iluminação: Jorge Farjalla, Jessica Catharine e José Dias. Preparação vocal: Patrícia Maia. Fotografia: Carol Beiriz. Produção executiva: Sandra Valverde. Direção de produção: Lu Klein. Realização: MRM Produções.

 

Serviço:
Teatro Cetip, Instituto Tomie Ohtake (627 lugares), Rua Coropés, 88, tel.11 4003.5588. Horários: sexta e sábado às 21h e domingo às 19h. Ingressos: de R$ 110 a R$ 70. Bilheteria: terça a sábado das 12h às 20h; domingo e feriados das 13h às 20h. Vendas: www.ticketsforfun.com.br.  Duração: 90 min. Classificação: 16 anos. Temporada: até 02 de Julho

Maurício Mellone publicou o texto no www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil