RESENHA: SÍNTHIA FAZ SEGUNDA TEMPORADA EM SÃO PAULO

Maurício Mellone * (redacao@aplausobrasil.com.br)

Sinthia reestreia em São Paulo para curta temporada. Foto: divulgação.
“Sínthia” reestreia em São Paulo para curta temporada. Foto: divulgação.

SÃO PAULO – Depois do sucesso de público e de crítica do espetáculo Cais ou Da Indiferença das Embarcações (vencedor do Prêmio Aplauso Brasil dramaturgia), a Velha Companhia está de volta com a peça Sínthia, resultado de dois anos de pesquisa. A temporada é curta e vai até 14 de novembro.

Da pesquisa e do processo colaborativo entre os membros da Cia, Kiko Marques — que também assina a direção e é o protagonista da trama — criou o espetáculo tendo como base sua experiência de vida: “Sempre partimos de algo pessoal. Desse flerte com a realidade e a memória, criamos a dramaturgia, que termina por descolar-se da memória. Fui esperado como menina por minha mãe, naquela época não se sabia o sexo do bebê até o nascimento. A peça tem origem nesta experiência: de uma mulher encarcerada num mundo machista, do paradigma da repressão como forma de amor e da questão da identidade de gênero, resolvi criar uma obra que falasse de compaixão”, explica Kiko Marques.
A trama tem seu início em pleno período da ditadura militar no Brasil, nos anos 1960: o oficial do exército Luis Mário e sua mulher Maria Aparecida, interpretados por Henrique Schafer e Denise Weinberg, já tinham três filhos homens e na quarta gravidez de Maria todos esperavam por uma menina, que se chamaria Sínthia; mas veio outro garoto, Vicente, interpretado por Kiko Marques. A ação retrata a saga desta família de classe média, intercalando cenas do passado (com a participação do patriarca nas investidas paramilitares da época e o sofrimento de Maria em criar sua prole) e o presente, com o drama de Vicente em conciliar o cuidado da mulher e da filha (vividas por Virgínia Buckowski) sem poder se distanciar da mãe, que sofre de doença grave. A peça discute tanto as consequências do autoritarismo da ditadura na vida das pessoas como a questão da transgeneridade nos dias atuais.

“O espetáculo fala de uma transformação necessária e sobre a incapacidade de aceitar aquilo que não se possui. Escrita em 2014, a obra se mostra atual e imprescindível pela maneira como a intolerância, alicerçada em certezas e interesses, vem se tornando o modo principal de nos relacionar tanto no campo pessoal como no social”, desabafa o dramaturgo.

Com poucos objetos cênicos (assinados por Chris Aizner) que são manipulados pelo próprio elenco nas diversas mudanças de época, a montagem é centrada na composição e no drama dos personagens. Está aí o grande destaque do espetáculo, graças à interpretação visceral e tocante da grande atriz Denise Weinberg, que divide a cena primeiramente com Henrique Schafer e depois com Virgínia Buckowski e os filhos, vividos por Willians Mezzacapa, Marcelo Marothy, Marcelo Diaz e Kiko Marques.
A história é emocionante e envolve o espectador, no entanto, poderia ter sofrido um corte e ficar mais enxuta e concisa, o que só traria benefícios para o resultado final. Mesmo assim, o espetáculo é impactante e prova como o envolvimento da equipe durante todo o processo de criação é fundamental para a melhor realização de uma obra teatral.

* Maurício Mellone publicou o texto no www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

Roteiro:
Sínthia
. Texto e direção: Kiko Marques. Elenco: Denise Weinberg, Henrique Schafer, Alejandra Sampaio, Virgínia Buckowski, Kiko Marques, Marcelo Diaz,  Willians Mezzacapa, Marcelo Marothy e Valmir Sant’anna. Cenografia: Chris Aizner. Figurinos: Fábio Namatame. Iluminação: Marisa Bentivegna.  Direção musical e trilha original: Tadeu Mallaman. Fotografia: Lenise Pinheiro. Produção geral: Velha Companhia.
Serviço:
Espaço dos Fofos (54 lugares), Rua Adoniran Barbosa, 151, tel. 3101-6640. Horários: de sábado a segunda às 20h. Ingressos: R$40. Duração 165 min. Classificação: 14 anos. Temporada: até 14 de novembro.

 

Kyra Piscitelli

Kyra Piscitelli é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e fez pós-graduação em Globalização e Cultura pela Faculdade de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Escreve sobre teatro e arte desde de 2009. Integra os Juris da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e do Prêmio Aplauso Brasil. Ávida por conhecimento, se não está em viagem ou estudo, só há um lugar para achá-la: o teatro!