Resenha: solo de Irene Ravache incita à reflexão sobre a vida

São Paulo – Não é spoiler (revelação de uma informação crucial de uma obra), já que tudo é revelado na primeira cena. Na peça de Andréa Bassit, Alma Despejada, Irene Ravache vive Teresa, uma mulher de 70 e poucos anos que revisita sua casa, que fora vendida e será reformada, e passa a dividir com os espectadores todos os momentos vividos ali. Detalhe: ele já morreu! Com humor e delicadeza, a montagem dirigida por Elias Andreato, por meio dos fatos pessoais relatados pela personagem, incita o público a refletir sobre a vida e a morte.

“Andréa Bassitt exercita sua memória como artista e mergulha num turbilhão de palavras. Seu texto fala do país e de nossas lembranças mais delicadas. E isso, mais do que nunca, se faz necessário”, afirma Elias Andreato.

Num cenário que demonstra uma casa que está sendo desmontada, Teresa, uma professora aposentada de classe média, olha tudo com carinho, emoção e sem apego, diz que está aprendendo a se desapegar de tudo. Ela conta que sempre viveu ali naquela casa e que esta será sua última visita. E sem rodeios conta que já morreu. É assim, desta forma direta, que a personagem começa a relatar à plateia sua condição atual e imediatamente deixa que a memória a leve para os momentos que desfrutou ali.

Teresa faz um verdadeiro inventário de sua existência, relembrando desde os momentos alegres vividos ao lado de Roberto, seu marido, e do casal de filhos, além de amigos queridos, como Dora, sua amiga de infância, e Neide, que trabalhou para ela por mais de 30 anos. Mas também vem à tona o período difícil, em que o marido revela sua participação em negócios escusos da política do país e vai preso.

Com um texto ágil e requintado, que leva o espectador do riso de uma piada inteligente às lágrimas, Irene tem pleno domínio cênico e, segundo o diretor, é “soberana no seu ofício, tem o poder de criar personagens preenchidos de leveza, humor e densidade”. Outro atrativo da peça de Bassitt: a autora mostra seu amor à palavra, a personagem se diz amante das palavras, tanto dos significados como das sonoridades delas (‘hipocrisia, parece sinfonia’, e a atriz pronuncia a palavra regendo como se estivesse à frente de uma orquestra).

“Essa mulher é apresentada diante de sua própria vida, e, a partir dessa visualização, ela encontra o entendimento da sua existência. É como se precisássemos abandonar a matéria para sermos conscientes de nós mesmos. Na peça, lidamos com a memória, como a personagem, sem medo de enfrentar nossos demônios e nossos momentos sonhados”, revela Elias Andreato.

Além da dramaturgia envolvente e da direção sensível que só valoriza a performance da atriz, Alma Despejada se destaca ainda pelo cenário e figurino assinados por Fabio Namatame, pela iluminação de Hiram Ravache  e pela trilha sonora de George Freire e Daniel Grajew, que contribuem para a condução da narrativa. Mas tudo se concretiza graças à interpretação de Irene Ravache: com seu talento e carisma, a atriz constrói com a plateia uma incrível sintonia, há uma verdadeira empatia entre ela e os espectadores. Um espetáculo reflexivo e ao mesmo tempo leve, que emociona. Imperdível!

Roteiro:
Alma Despejada
Texto: Andréa Bassitt. Direção: Elias Andreato. Elenco: Irene Ravache. Cenário e figurino: Fabio Namatame. Iluminação: Hiram Ravache. Trilha sonora: George Freire e Daniel Grajew. Fotografia: João Caldas Filho. Produção: Oasis Empreendimentos Artísticos Ltda.
Serviço:
Teatro Porto Seguro (496 lugares), Al. Barão de Piracicaba, 740, tel. 11 3226.7300. Horários: quarta e quinta às 21h (dias 9, 10, 30 e 31/10 não haverá sessão). Ingressos: R$ 70 e R$ 60. Bilheteria: de terça a sábado, das 13h às 21h e domingos, das 12h às 19h. Serviço de Vans: transporte gratuito da estação Luz até o teatro. Duração: 80 min. Classificação: 14 anos. Temporada: até 28 de novembro.

* Maurício Mellone publicou o texto no 
www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

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