RESENHA: SOLO DE MARCELO VARZEA DISCUTE O FIM DE UMA RELAÇÃO

RESENHA: SOLO DE MARCELO VARZEA DISCUTE O FIM DE UMA RELAÇÃO AMOROSA

SÃO PAULO – O ator e diretor Marcelo Varzea acaba de estrear seu primeiro texto teatral, Silêncio.doc, com direção de Marcio Macena. Em tom tragicômico, a trama mostra um homem recolhido em seus pensamentos depois de ter sido abandonado pela mulher; ele faz uma reflexão profunda sobre o fim da sua relação e tenta vislumbrar a vida depois da separação. O ator explica a proposta da peça, dizendo que não é a sua história pessoal, mas a junção de sua experiência, da história de amigos e de todos que se separam, porque há muita coisa parecida nas separações conjugais:


“O texto mostra o conflito quando a pessoa sofre uma separação que ele não decidiu. Quem decide a separação tem outro conflito; quem é ‘desistido’ tem o conflito de aceitar e prosseguir ou tentar resgatar aquela história de amor. É sobre isto que a peça fala”, diz Marcelo Varzea.

Ao entrar na sala de espetáculo, o público já encontra o ator em cena. Ensimesmado, ele perambula pelo espaço cênico, lê textos espalhados pelo chão, se exercita e, ao sinal de início, começa a expressar o fluxo de pensamentos daquele homem em crise. Como se estivesse escrevendo um texto, o personagem confessa que há tempos se sente ‘engatado’ e preso depois de ter sido abandonado pela amada. A partir daí ele levanta todas as hipóteses que o levaram àquela situação de angústia e dor, faz uma radiografia profunda sobre a separação conjugal e tenta vislumbrar saídas.

Mesclando tons dramáticos com dose de humor e sarcasmo, o personagem questiona o modelo de amor romântico e idealizado e procura aceitar o fim da relação; mas ao mesmo tempo tenta se apegar à história vivida no passado recente com a amada. Em diversos momentos, o ator quebra a quarta parede e busca a cumplicidade com o público. Chega até a pedir que cantem com ele algumas músicas de dor de cotovelo.

“Acontece uma catarse com a plateia. O espetáculo começa pesado e termina doído, mas o meio é bem divertido. Como é uma elucubração dele — dá uma aula sobre fé, amor, possibilidades românticas e como se livrar da separação —, abro para a plateia e as pessoas cantam comigo. É muito legal”, confessa o ator.

Além de domínio de palco e forte empatia com os espectadores, Varzea se revela um autor estreante de grande talento: a trama não traz novidade (o relato do fim de um casamento), mas a forma como a separação é tratada, com o personagem revelando seu eletrizante e paradoxal fluxo mental cativa o espectador e o incita a rever a própria relação amorosa.

O texto também traz um criativo jogo de palavras que ajuda a reflexão (usa, por exemplo, o termo mente, tanto quanto substantivo como verbo). Com uma direção que valoriza a performance do ator, Silêncio. doc também merece destaque pela criativa iluminação de Cesar Pivetti e Vania Jaconis que pontua todo o monólogo; o  cenário de André Cortez, simples e significativo (duas cadeiras e uma mesa revestida de espuma com um aquário e uma boneca dentro: seria alusão às mágoas do personagem?), é outro realce do espetáculo. Não deixe de conferir.

Roteiro:
Silêncio.doc. Texto e atuação: Marcelo Varzea. Direção: Marcio Macena. Assistência de direção: Tadeu Freitas. Cenografia: André Cortez. Figurino: Leopoldo Pacheco. Iluminação: Cesar Pivetti e Vania Jaconis. Direção de movimento: Erica Rodrigues.  Trilha sonora: Márcio Guimarães. Fotografia: Naava Bassi. Produção: Cláudia Odorissio e Luiz Ricci.
Serviço:
Auditório MuBe (192 lugares), Rua Alemanha, 221, tel. 11 2594-2601. Horários: terças às 21h. Ingressos: R$ 40 e R$ 20. Duração: 60 min. Classificação: 14 anos. Temporada: até 08 de maio.


Maurício Mellone publicou o texto no www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

 

 

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.