Resenha: solo online de Laerte Késsimos homenageia o artista plástico Leonilson

EM REDE  – Espetáculo já encenado em 2019, período pré-pandemia com a presença do público, Ser José Leonilson ganha versão audiovisual online, com transmissões gratuitas pela plataforma Sympla até 19 de março. Com dramaturgia de Leonardo Moreira e direção de Aura Cunha, o solo de Laerte Késsimos presta uma homenagem ao artista plástico cearense José Leonilson Bezerra Dias, morto em 1993, vítima de Aids. Ao mesmo tempo, o espetáculo entrelaça a trajetória de Leonilson com a história de vida de Laerte, com depoimentos de sua infância, sua relação com os pais e sua carreira artística. O ator está em seu ateliê e numa conversa com o espectador (que em diversos momentos também é o próprio Leonilson) aciona o gravador com as gravações do artista, exibe os vídeos e vai se caracterizando para uma apresentação final surpreendente.

O espetáculo começa com um passeio de câmera pela exposição Como se desenha um coração, de Laerte Késsimos. Desta forma o espectador é introduzido ao mundo das artes plásticas, ao universo tanto de Leonilson como de Laerte, que já em seu ateliê começa o solo, que mistura artes visuais, projeções em vídeo, gravações originais do artista cearense e depoimentos de Laerte sobre sua própria biografia, com relatos sobre sua relação com o pai, com a mãe e sua carreira artística.

Na época da estreia do espetáculo presencial, Laerte afirmou que sua intenção não era realizar uma biografia tradicional do artista cearense:
“Leonilson fazia autoficção, criava em cima da própria vida. Não teria sentido no espetáculo eu me vestir de Leonilson e fazer com que as pessoas achassem que eu era ele. A intenção é tentar reproduzir o processo criativo dele”, explica Laerte Késsimos, responsável pela idealização do projeto.

No entanto, o espectador precisa ficar atento, pois a estrutura do solo, do início ao fim, faz uma mescla da experiência de vida dos dois artistas: da mesma forma que o ator relata a trajetória de Leonilson, ele fala da sua própria vivência. Num determinado momento, de extrema emoção, o ator em primeira pessoa explica sobre sua contaminação com o vírus HIV. Confesso que fiquei em dúvida quem era o depoente!

Além da riqueza visual e da comovente história de vida de Leonilson, o espetáculo é poético e envolvente. Único senão: por ser online, a trama poderia ser editada. Mas Laerte tem uma atuação de grande impacto. O ator, na parte final, diante da câmera, vai se maquiando e sem qualquer truque ou recurso técnico cria uma belíssima artista
transformista, que se diz livre para viver o que quiser da vida.

Roteiro:

Ser José Leonilson. Idealização e atuação: Laerte Késsimos. Direção: Aura Cunha. Dramaturgia e pesquisa: Leonardo Moreira. Cenografia: Marisa Bentivegna. Iluminação: Aline Santini. Trilha sonora original: Marcelo Pellegrini. Pesquisa, figurino e direção audiovisual: Laerte Késsimos. Fotografia: Leekyung Kim. Direção de produção: Laerte Késsimos e Gustavo Sanna. Produção Executiva: Yumi Ogino.

Serviço:
Transmissão pela plataforma Sympla. Horários: de sexta a domingo às 20h. Ingressos: gratuitos. Duração: 95 min. Classificação: 16 anos. Temporada: até 19 de março.

* Maurício Mellone publicou o texto no www.favodomellone.com.br – parceiro do
Aplauso Brasil