Resenha: texto do espanhol Guillem Clua denuncia atos homofóbicos 

SÃO PAULO – A peça do dramaturgo espanhol Guillen Clua, A Golondrina, é inspirada em alguns atos terroristas ocorridos no mundo nos últimos anos, em especial ao ataque de 2016 à boate gay de Orlando/EUA, que provocou a morte de 50 pessoas. Sob a direção de Gabriel Fontes Paiva, a trama revela a relação entre Amélia, uma professora de música vivida por Tania Bondezan, e Ramón, interpretado por Luciano Andrey. O rapaz procura a professora para aperfeiçoar sua técnica vocal para uma apresentação póstuma que fará. Rigorosa, Amélia se recusa a ministrar aulas ao novato, que insiste dizendo que seria uma homenagem à mãe, que falecera há um ano. A professora é convencida e inicia suas aulas. No entanto, o passado traumático de ambos vem à tona e as feridas ficam expostas: o público torna-se cúmplice da história de vida deles.

As cenas iniciais já revelam a difícil relação entre Amélia e Ramón: ela é irredutível e não quer aceitar o novo aluno. Entretanto, o rapaz apela para o sentimento dela: diz que sua mãe faleceu há um ano e que o pai deseja que ele cante na cerimônia póstuma a ela. Amélia cede e começa a trabalho. No decorrer das aulas, no entanto, Ramón procura trazer à tona seu passado, que tem inúmeras coincidências com o da professora. Os segredos da vida de ambos vêm à tona e os atritos são inevitáveis.

A trama foi construída tendo como inspiração o atentando terrorista contra a boate gay de Orlando/EUA, em 2016, que provocou a morte de 50 pessoas, além de inúmeros feridos. Outros atentados também serviram de inspiração para o dramaturgo:

“Minha peça fala de todos esses lugares e tenta entender o absurdo do horror, as consequências do ódio e as estratégias que usamos para que não nos destruam nossa alma. De alguma forma Amélia e Ramón são como todos nós, porque ante um ataque indiscriminado somos todos vítimas, enfrentamos as mesmas encruzilhadas: ódio ou amor. Nosso mundo depende da direção que tomamos”, argumenta Guillem Clua.

A dor une os dois personagens, porém cada um deles expressa seus argumentos aparentemente conflitantes. O autor apresenta as duas posições, sem julgamento, e propõe uma reflexão sobre temas de extrema atualidade como intolerância, homofobia, preconceito e o horror provocado pelos ataques terroristas no mundo contemporâneo.

Com uma dramaturgia forte e contundente, a montagem valoriza o embate entre os personagens. Num jogo de esconde-esconde, o espectador vai construindo a narrativa como um grande quebra cabeça e torna-se cúmplice da história. Sem dúvida o grande destaque do espetáculo é a sintonia de Tania e Luciano em cena: ambos têm interpretações de grande impacto ao defender a posição de seus personagens. E o público tem a chance de uma reflexão profunda sobre mazelas da sociedade contemporânea; impossível sair imune diante de fatos tão violentos, cruéis e sem qualquer lógica.

Roteiro:
A Golondrina
. Texto: Guillem Clua. Tradução: Tana Bondezan. Direção: Gabriel Fontes Paiva. Assistente de direção: Ana Paula Gomez. Elenco: Tania Bondezan e Luciano Andrey. Cenário e figurino: Fabio Namatame. Iluminação: André Prado e Gabriel Fontes Paiva. Trilha sonora: Luisa Maita. Preparação Vocal: Jonatan Harold. Fotografia: Jairo Goldflus. Produção executiva: Marcos Rinaldi.
Serviço:
Teatro Nair Bello, Shopping Frei Caneca (200 lugares), Rua Frei Caneca, 569, tel. 11 3472-2414. Horários: sexta e sábado às 21h e domingo às 19h. Ingressos: R$ 60 e R$ 30. Duração: 90 min. Classificação: 16 anos. Temporada: até 09 de junho.


* Maurício Mellone publicou o texto no 
www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

No Comments Yet

Leave a Reply

Seu email não será publicado

*