RESENHA: TEXTO INÉDITO DE FAUZI ARAP DEVASSA BASTIDORES DO PODER

Maurício Mellone * (redacao@aplausobrasil.com)

DONA BETE © Joao Caldas Fº
DONA BETE © Joao Caldas Fº

SÃO PAULO – Num momento de tantas turbulências na vida política do país, nada melhor do que uma boa ironia para ajudar a reflexão sobre os bastidores do poder. E Dona Bete, peça inédita que o saudoso Fazi Arap escreveu em 2007, cai como uma luva para analisarmos o Brasil de hoje. O espetáculo reproduz uma entrevista coletiva em que a secretária Dona Bete, papel de Elias Andreato, chega com o advogado, vivido por Nilton Bicudo, para esclarecer o assassinato de um traficante em que um deputado federal está implicado. Como o político não aparece, os jornalistas começam a questionar a secretária dele, que sem papas na língua vai dando pistas sobre o crime.

Com direção assinada em parceria por André Acioli e Elias Andreato, a peça tem início com os dois atores no palco em fase final de preparação para entrar em cena; com as cortinas semiabertas e quase na penumbra eles terminam a maquiagem e dão os últimos retoques no figurino, enquanto em off Elias interpreta belo texto do autor da peça sobre a carreira e a missão do ator.

Eles deixam o palco e voltam em seguida pela plateia, já na pele da secretária e do advogado Olavo. Os espectadores passam a representar os jornalistas convidados para a entrevista coletiva com o deputado federal, que está atrasado. Dona Bete e o advogado sobem ao palco e ela não consegue ficar calada diante das perguntas, muitas delas incisivas e provocativas, mesmo com o empenho do advogado em poupar seu cliente e conter a secretária.

Aos poucos, Dona Bete vai respondendo aos jornalistas e a verdade sobre o assassinato do traficante vem à tona, assim como seu envolvimento emocional com o chefe e todas as ações torpes e escusas dos bastidores do poder.

DONA BETE © Joao Caldas Fº
DONA BETE © Joao Caldas Fº

Parece que a peça acaba de ser escrita: ao invés de tentativas para encobrir desvios de propinas e prejudicar o trabalho da Justiça — o que os noticiários atuais não cansam de divulgar—, a trama revela como políticos agem nos bastidores para livrar a própria pele de crimes e maracutaias.

O bom da montagem é que a ironia e o sarcasmo são a tônica do espetáculo. E tudo graças à hilária e perfeita composição do personagem de Elias Andreato, que dá vida a uma secretária que cada um de nós já cruzou nesta vida! E a sintonia em cena de Elias e Nilton é outro fator determinante para o êxito da peça: além de amigos e terem trabalhado juntos algumas vezes, já encenaram dois textos de Fauzi Arap.

“Peguei minha indignação e impotência diante de tanto descaso e resolvi usar minha arma preferida: a ironia. Quero rir de mim e de todos para tornar a vida mais leve diante de tantas tragédias”, diz Elias Andreato, que está comemorando 45 anos de carreira.

Outro destaque da peça é a trilha sonora: as músicas de Tom Zé pontuam toda a trama e se encaixam perfeitamente tanto para as ações da peça como, principalmente, satirizar a realidade brasileira. Imperdível!

* Maurício Mellone publicou o texto no www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

 

Roteiro: Texto: Fauzi Arap. Direção: Andre Acioli e Elias Andreato. Elenco: Elias Andreato e Nilton Bicudo. Trilha sonora: Jonatan Harold e músicas de Tom Zé. Figurino: Fabio Namatame. Fotografia: João Caldas. Produção executiva: Francine Storino. Realização: Morente Forte Produções Teatrais
Serviço:
Teatro Eva Herz (168 lugares), Avenida Paulista, 2073, Livraria Cultura – Conjunto Nacional, tel.: 3170-4059. Horários: sábado às 18h. Ingressos: R$ 60. Bilheteria: terça a sábado, das 14h às 21h; domingos das 12h às 19h. Vendas: www.ingressorapido.com.br. Duração: 55 minutos. Classificação: 14 anos. Temporada: até 28 de Maio.

 

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