SATYRIANAS 2014: A DANÇA TEM SEU LUGAR EM EVENTO TEATRAL

André Lopes colaborador especial das Satyrianas 2014 para o Aplauso Brasil (redacao@aplausobrasil.com.br)

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SÃO PAULO – Uma das características das Satyrianas é agregar diferentes segmentos artísticos e, o projeto Dançamix (ex-Satyras da Dança) completa nessa 15ª edição do evento, seis anos e coloca a dança em foco. Com curadoria da atriz dos Satyros e jornalista especializada em artes cênicas, Katia Calsavara, o DançaMix traz, entre outros, espetáculos como O Canto Preso (Cia. Sandro Borelli), Corpo Sobre Tela (Cia. Vidança) e Aos Vencedores as Batatas (Cia. Fragmento de Dança), até domingo (23).

Num bate papo rápido, mas objetivo, Katia Calsavara, curadora do DançaMix, nos contou um pouco da sua ligação com a dança contemporânea e como essa manifestação enriquece o projeto Satyrianas 2014.

Aplauso Brasil – Como é ser responsável pela curadoria do Dançamix que será uma das atrações de um evento tão variado como as Satyrianas 2014?

Katia Calsavara – Trazer os grupos de dança para dentro do evento é um prazer e uma luta, porque não são todos que topam apresentar seus trabalhos sem receber qualquer tipo de cachê ou ajuda de custo, mas os artistas valorizam cada vez mais fazer parte dessa grande festa, que a cada dia recebe mais público e tem grande repercussão e, em se tratando de um evento desse porte, a dança precisa ser bem representada e deve ter seu espaço garantido.

AB – De que forma você acredita que a dança contemporânea contribui para/com o teatro? Por que incluir o segmento dança na Satyrianas 2014?

Katia Calsavara – A dança tem um frescor e um jeito de dizer as coisas que sempre acrescenta ao teatro, é uma parceria produtiva. Isso sem falar no quanto essa arte pode transformar um ator e, dependendo de como ele a utiliza, é claro, colaborar significantemente na atuação. A questão da postura é um exemplo. Você não vai andar em cena como se tivesse engolido um cabide, não é isso, mas vai ter mais consciência corporal, ficar mais afinado na hora de se movimentar, de usar os braços e até ficar parado. Esse ano, sete grupos de dança contemporânea apresentarão suas criações na Satyrianas. Uma dessas criações chama-se Terra Trêmula (interpretado pela Dual Cena Contemporânea) que fará referência a um encontro entre Ogum e São Miguel Arcanjo no Brasil do século 18.

AB – Como é feita a escolha dos espetáculos que serão apresentados? O que você avalia para fazer essa escolha?

Katia Calsavara – Uma parte dos grupos é escolhida via inscrições e a outra é feita por meio de convites. Isso para que possamos contar com bons trabalhos profissionais em pelo menos metade da programação – eles têm um papel importante na divulgação da dança. Entre os convidados, sempre considero a qualidade da obra como um todo, o que inclui elenco, performances individuais e coletivas, alcance do trabalho e o modo como ele se destaca na cena contemporânea. Estou bem feliz neste ano com os grupos que toparam participar! Fiquei orgulhosa de poder contar com a parceria de todos na programação. O público poderá ver trabalhos lindos e impactantes. Entre os artistas inscritos, levo em consideração currículo, originalidade, vídeo dos trabalhos, entre outros aspectos.

AB – Muitas pessoas limitam-se devido a sentimentos como timidez e problemas físicos, mas o teatro é um lugar onde qualquer limitação é inexistente e todos são capazes de fazer tudo. Na Satyrianas 2014 teremos a presença do diretor e coreógrafo Marcos Abranches que foi vítima de uma paralisia cerebral durante o parto, mas desde os 15 anos pratica dança contemporânea com perfeição. Katia, você credita que a Satyrianas, juntamente com os grupos de dança contemporânea que mostram as diversas faces de um corpo, é capaz de influenciar aqueles que possuem receio de praticar as artes cênicas?

Katia Calsavara – Eu concordo que muitas limitações podem ser vencidas em cena e um dos exemplos é o trabalho do Abranches. Mas, nesse caso em especial e em muitos outros, não é a deficiência que está em primeiro plano, muito pelo contrário. A história de vida dele toda é uma superação, mas em primeiro lugar ele é um artista, reconhecido nacional e internacionalmente, e seu trabalho vai muito além de qualquer deficiência. Convido a todos para ver essa obra de arte em cena no evento! Acredito que a Satyrianas é uma mostra democrática das artes. Há desde trabalhos já consagrados a outros experimentais que estreiam no evento e depois ganham o “mundo”. Quanto a influenciar ou encorajar pessoas a praticar as artes cênicas, é preciso levar em conta que este é um trabalho profissional que exige formação específica como qualquer outro, mas que está longe de ser inalcançável. Se a pessoa tem esse desejo, deve encorajar-se, seguir em frente, superar os limites, estudar, como em qualquer outra área.

Aos Vencedores, as Batatas – Partindo do entendimento individual da palavra “ruptura”, cinco bailarinos-intérpretes da paulistana Cia Fragmento de Dança mesclam suas experiências de vida e trajetória em solos dosados com muito humor e ironia. Dirigidos por Vanessa Macedo, fundadora e diretora da companhia, que existe há 12 anos, os artistas Chico Rosa, Maitê Molnar, Jéssica Moretto, Rafael Sertori e Rafael Edgar oferecem cinco visões distintas com base em desejos, afetos e angústias universais do homem contemporâneo. Um show de talentos ou apenas a vida real? O projeto foi contemplado pelo 16° edital do Programa Municipal de Fomento à Dança para a Cidade de São Paulo. (60 min). Quando: Qui, 20/11 às 21h. Onde: SP Escola de Teatro – Sede Roosevelt, 6o. andar.

 

Corpo de Passagem – Há doze anos, o coletivo GRUA – Gentleman de Rua foi fundado pelos bailarinos Jorge Garcia, Willy Helm, Laudinei Delgado e Aguinaldo Bueno, todos com trajetórias reconhecidas nos palcos da dança contemporânea. Com o objetivo de sair da “caixa preta” e improvisar em espaços urbanos, eles convidam outros parceiros (chamados de grueiros) e realizam performances em meio a avenidas, ruas e praças com o intuito de oferecer gentilezas aos transeuntes (daí o “gentleman”). Vestidos sempre de terno preto, eles quase se mimetizam pelas ruas dos centros urbanos, mas na Roosevelt é capaz de serem notados rapidamente! (50 min). Quando: Sex, 21/11 às 23h. Onde: Praça Roosevelt.

 

Corpo sobre Tela – Criador da Cia Vidança em 2005, o dançarino, diretor e coreógrafo Marcos Abranches acumula um percurso como o de qualquer outro artista, mesmo com suas limitações físicas. Vítima de uma paralisia cerebral durante o parto, ele teve a fala e o sistema motor comprometidos, mas desde os 15 anos apaixonou-se e começou a praticar dança contemporânea. Um de seus trabalhos mais recentes, o solo “Corpo sobre Tela”, é um presente aos amantes das artes. Pulsante e intenso em cena, ele usa seu corpo como pincel para refletir sobre a obra do artista irlandês Francis Bacon. “Jogar tinta em meu corpo e pintar uma tela com ele é ter a sensação de se ver de fora para dentro”, diz. (50 min). Quando: Dom, 23/11 às 01h. Onde: SP Escola de Teatro – Sede Roosevelt, 6o. andar.

 

Ninhos – Performance para Grandes Pequenos – Será que existe espetáculos de dança contemporânea desenvolvidos especialmente para crianças? A resposta é um sonoro “siiiiim” ao contemplarmos o trabalho sólido e criativo da Cia Balangandança, dirigida por Georgia Lengos. Saltar, correr, voar… Um jogo de brincadeiras se estabelece entre artistas, crianças e adultos, que exploram juntos diferentes estados do corpo com o objetivo de fortalecer as relações mais sutis. Uma brincadeira viva e de contato direto com a dança. (40 min). Quando: Dom, 23/11 às 11h. Onde: Praça Roosevelt. Infantil, para crianças de todas as idades.

 

O Canto Preso – A coreografia “O Canto Preso” estreou em 1999 e, desde então, é lembrada como um dos marcos da trajetória de Sandro Borelli, diretor e fundador da companhia Carne Agonizante. O trabalho é uma adaptação coreográfica do texto teatral “Bent”, do dramaturgo norte-americano Martin Sherman, que tem como base o nazismo e o preconceito. Na obra, um homem é perseguido e preso por ser homossexual e se faz passar por judeu para tentar amenizar seu sofrimento na prisão. No elenco desta remontagem estão Alex Merino, Roberto Alencar, Rafael Carrion e Amanda Santos. O projeto foi contemplado pelo 15º edital do Programa de Fomento à Dança para a Cidade de São Paulo. (50 min). Quando: Sex, 21/11 às 21h. Onde: SP Escola de Teatro – Sede Roosevelt, 6o. andar.

 

Raskh – Work in Progress – O Coletivo Ns é fruto da união de Juliana Diaz, Sylvia Aragão e Aleirbag Pas. Juntas, elas buscam unir as artes do corpo (com enfoque em teatro e dança) às artes visuais e gráficas em intervenções urbanas. Em “Raskh”, elas se movimentam em ordem determinada para representar a migração da alma feminina para uma árvore urbana. A performance sugere o reflexo do anonimato das árvores espalhadas pelas cidades. (40 min). Quando: Sab , 22/11 às 23h. Onde: Praça Roosevelt.

 

Terra Trêmula – Interpretado pela Dual Cena Contemporânea, companhia dirigida por Ivan Bernadelli, o espetáculo de dança contemporânea faz referência a um encontro entre Ogum e São Miguel Arcanjo no Brasil do século 18. Escravidão, mineração e conflitos religiosos permeiam a obra, que também trabalha os contrastes entre luz e sombra, sagrado e profano no barroco brasileiro. No elenco Ivan Bernadelli, Mônica Augusto e Junior Gonçalves. (40 min). Quando: Sex, 21/11 às 23h30. Onde: SP Escola de Teatro – Sede Roosevelt, 6o. andar.