SEM ABUJAMRA QUEM VAI NOS PROVOCAR?

Kyra Piscitelli, do Aplauso Brasil (kyra@aplausobrasil.com)

Antonio Abujamra (foto) e seu legado de provocações. Foto: divulgação
Antônio Abujamra (foto) e seu legado de provocações. Foto: divulgação

Antônio Abujamra (1932 -2015) era um provocador, talvez o último entre nós. Entre a doçura e o humor ácido, foi um homem que viveu “idolatrando a dúvida” – frase que sempre dizia no seu programa da TV Cultura – que sobreviveu por 15 anos no ar. TV, entrevista, artes, filosofia. Abujamra tinha um pé ( ou os dois) em todas as artes e o coração no teatro. No palco, ousou, fez história, criou e inovou.

Nascido em Ourinhos, interior de São Paulo, Abujamra morreu hoje (28), mas deixou muitas provocações como legado. Ensinou que as certezas são banais e, aos 82 anos, conseguia ser muito mais do que uma referência, era um ativo da arte no Brasil e de São Paulo. Mérito que deve ser destacado.

Abujamra formou-se em e jornalismo e filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS). Chegou a ser crítico teatral, mas logo se descobriu como homem do palco.

No teatro foi um dos primeiros a introduzir os princípios e métodos teatrais de Bertolt Brecht, Roger Planchon e outros grandes.

Abujamra estreiou profissionalmente em 1961, em São Paulo, no Teatro Cacilda Becker – TCB, onde dirige Raízes, de Arnold Wesker, e no Teatro Oficina, com José, do Parto à Sepultura, de Augusto Boal e no Teatro Oficina, com José, do Parto à Sepultura, de Augusto Boal.

Teve em sua trajetória uma importante parceria com Ruth Escobar. E, em 1980, empenhou-se em recuperar o Teatro Brasileiro de Comédia – TBC. Foram sete anos de trabalho e peças memoráveis como Os Órfãos de Jânio, de Millôr Fernandes.

Abujamra fundou a companhia Os Fodidos Privilegiados, que produziu muito nos anos 1990 e ganhou prêmios. A direção do grupo foi, depois, dividida com João Fonseca. O grupo foi fundado para ocupar o Teatro Dulcina, no Rio de Janeiro.

Manter o teatro, inovar, chocar e trazer as palavras foi mesmo uma das grandes missões de Abu, como o chamavam os amigos.

Que as suas provocações, e sua capacidade de fugir do óbvio floresçam, ainda que fique um vazio e a sensação que faltam personalidades como ele. Foi-se um insubstituível.

Kyra Piscitelli

Kyra Piscitelli é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e fez pós-graduação em Globalização e Cultura pela Faculdade de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Escreve sobre teatro e arte desde de 2009. Integra os Juris da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e do Prêmio Aplauso Brasil. Ávida por conhecimento, se não está em viagem ou estudo, só há um lugar para achá-la: o teatro!