Side Man evidencia as agruras da profissão dos artistas

Kiko Rieser, especial para o Aplauso Brasil

"Side Man", em cartaz no Teatro Sérgio Cardoso

O processo de feitura de uma obra de arte é premido por diversas circunstâncias que não concernem somente ao criador, mas que dizem respeito ao mundo mercantil em que a obra se inserirá. Profissão difícil e preterida pelos grandes poderes políticos e econômicos, a arte sempre passa por enormes dificuldades para conseguir se sustentar e se divulgar.

Em formas de manifestação artística mais artesanais, como o teatro, é muito comum um espetáculo chegar a ser inviabilizado por falta de dinheiro. Diversos artistas acabam precisando de uma profissão paralela para se manter e muitos dos que não a têm passam por inúmeros momentos de incerteza quanto a um futuro próximo, sempre sujeitos às instabilidades de um mercado exíguo e, muitas vezes, paternalista.

Quem vê uma obra de arte pronta pode não imaginar tudo que a envolve, não conseguindo, deste modo, vê-la em sua completude. Torna-se mister, portanto, evidenciar ao público leigo o que há por trás do mundo muitas vezes idealizado que cerca a arte e os artistas, tarefa essa que cumpre o espetáculo Side Man.

O ator Otávio Martins

O texto de Warren Leight trata de tempo e lugar muito específicos: Nova York, meados do século 20. As rádios vêm ganhando cada vez mais importância e o rock está crescendo e se tornando um ritmo praticamente hegemônico. Neste cenário, os grandes músicos de jazz passam a ter cada vez mais dificuldades para conseguir se manter de sua música.

O que pode nos parecer uma realidade distante é, na verdade, muito atual, pois o mundo artístico se assemelha ao da moda na sua instabilidade, no sentido de que é feito de tendências, e algo que faz extremo sucesso logo em seguida pode se tornar obsoleto sob certo ponto de vista. Para mostrar isso, a peça acompanha a trajetória de Gene Glimmer, um side man, ou seja, músico de apoio.

Se há tantas dificuldades numa profissão escolhida por diversas pessoas, é porque também há extrema beleza em fazer de uma forma genuína de expressão um trabalho. Por isso, o universo que Leight constrói quando Glimmer ainda é um trompetista de sucesso é fascinante, repleto de histórias compartilhadas entre os músicos e de momentos poéticos quando o protagonista conhece Terry, com quem acaba se casando.

A união dos dois e a chegada de um filho coincidem com a decadência dos jazzistas. Além dos problemas econômicos, o que acontece é uma profunda degradação do prestígio de que esses músicos desfrutaram no passado. Glimmer passa a ser maltratado por contratantes e vê um colega ser preso e agredido. Essa crise profissional acaba se refletindo na vida pessoal do trompetista, desestruturando completamente sua família. É por esmiuçar não as particularidades daquele momento histórico, mas as implicações que essa transformação traz à vida do protagonista e dos outros músicos, que o retrato de Leight se torna atemporal.

O fascínio e a beleza da vida de artista são amplamente reforçados pela direção de Zé Henrique de Paula, que cria imagens a partir de quadros de Edward Hopper e Norman Rockwell, pintores que viveram na época em que se passa a peça e que muitas vezes retratavam a boemia e a vida noturna, tão caras aos músicos.

Para isso, o cenógrafo Jean Pierre Tortil concebe um cenário diferente para cada um dos diversos ambientes em que a ação se passa, buscando, deste modo, que cada um se torne especialmente atrativo visualmente. A iluminação de Fran Barros trabalha essencialmente com luzes laterais, criando uma atmosfera quase brumosa que acentua o clima feérico da montagem. As interpretações, todas representando personagens notívagos, seguem a mesma linha, com tons de sedução na voz, meio-sorrisos e troca constante de olhares.

Há, enfim, um empenho do espetáculo no sentido de tornar atraente o universo retratado, o que aumenta a força do contraponto com a decadência pela qual as personagens depois passarão, evidenciando o potencial que os artistas têm e que, muitas vezes, como na peça, é tolhido pelo mercado. Esse trabalho da encenação fica claro se forem justapostas as cenas em que os músicos em seu auge conversam animadamente no bar e aquela em que, já arruinados, eles ouvem em silêncio uma gravação de Clifford Brown.

Essa contraposição entre o apogeu do jazz e sua derrocada fica explícita na transformação do casal protagonista, a partir da degradação familiar que os leva a praticamente uma inversão de papéis. Otávio Martins, representando Gene Glimmer, é confiante e seguro no início, mas, conforme vai envelhecendo e seu corpo vai se curvando, ele se torna cada vez mais ingênuo, saudoso de um reconhecimento perdido. Sandra Corveloni, no papel de Terry, segue o caminho contrário, indo da ingenuidade a uma certa maturidade de ter os pés no chão quando a situação financeira se complica. São dois intérpretes que constroem seu desempenho em sintonia com a linha-mestra do espetáculo, explicitando, tanto no campo objetivo como no subjetivo, o impacto e a frustração que a mudança brusca na conjuntura acarreta.

Para o público leigo – a quem o espetáculo cumpre seu mais importante papel, o de evidenciar as agruras da profissão dos artistas – talvez continue parecendo uma realidade distante, já que Side Man é um espetáculo alicerçado em diversos patrocínios e apoios. Talvez uma produção menor refletisse melhor, no seu aspecto produtivo, o tema da peça. Entretanto, é motivo de contentamento que um trabalho sério como este possa ser feito com verba, remunerando toda a equipe e possibilitando a sofisticada estrutura que a obra tem. Se muitas vezes a dificuldade econômica para a realização artística faz parte da realidade, felizmente, neste caso, ela fica apenas no plano da ficção.

Obs.: Esta crítica é dedicada à memória de Alberto Guzik um dos maiores homens de teatro deste país. Vai deixar muitas saudades.

FICHA TÉCNICA

Autor: Warren Leight
Direção: Zé Henrique de Paula
Assistência de direção: Thiago Ledier
Elenco: Otávio Martins, Sandra Corveloni, Alexandre Slaviero, Eric Lenate, Luciano Schwab, Daniel Costa e Gabriela Durlo (stand-in: Marco Aurélio Campos, Davi Reis e Amazyles de Almeida)
Preparação corporal: Inês Aranha
Preparação vocal: Maria Silvia Siqueira Campos
Figurinos: Rogério Figueiredo
Cenários: Jean Pierre Tortil
Visagismo: Fábio Petri
Design de som: Fernanda Maia
Iluminação: Fran Barros
Cenotécnica: Paulo Branco
Assessoria de imprensa: Darlene Dalto
Design gráfico: José Edward Flaga
Produção: Zeca Souza Campos e Davi Amarante
Fotos: Ronaldo Gutierrez

Side Man – Teatro Sérgio Cardoso (Rua Rui Barbosa, 153). Tel. (011) 3288-0136. Quinta e sexta, 21h30; sáb., 18h e 21h; dom., 18h. R$ 10/R$60. Até 01/08.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.