Strindberg questiona o casamento tradicional

Maurício Mellone, editor do Favo do Mellone site parceiro do Aplauso Brasil (aplausobrasil@aplausobrasil.com)

"Brincando com Fogo" - foto por Lígia Jardim

Com direção de Nelson Baskerville, a Cia Mamba de Artes apresenta Brincando Com Fogo, peça inédita no país, dentro das comemorações do centenário de morte do dramaturgo sueco

SÃO PAULO – Hoje em que se discute o modelo romântico de casamento, a montagem da Cia. Mamba de Artes da peça, inédita no Brasil, de August Strindberg, Brincando com Fogo, em cartaz na Caixa Cênica do SESC Pompeia, é mais do que bem-vinda.

Mesmo tendo sido escrita em 1891, a peça é atual justamente por colocar em cheque o casamento tradicional, muito conhecido e praticado por todos nós até hoje. Na montagem dirigida por Nelson Baskerville o público é surpreendido logo ao entrar: ao invés de uma sala comum de exibição, as pessoas se deparam com uma tenda inflável, em que os atores estão preparados para o início de uma cerimônia de casamento, e são, em seguida, conduzidas a se sentar nos dois lados da tenda. Somos ao mesmo tempo espectadores de teatro e convidados do casamento.
Depois do terceiro sinal — dado por microfone por um dos atores na tenda —, a cerimônia do casamento tem início, desde a entrada da noiva, os rituais do enlace até os cumprimentos, a festa e a consequente ressaca. Detalhe: todas estas cenas acontecem dentro da tenda inflável, somente com uma trilha sonora, sem qualquer fala. Tudo muito ágil e impactante.

"Brincando com Fogo" - foto por Lígia Jardim

O tédio daquele casal de férias na casa de praia dos pais (interpretado por Adilson Azevedo) só vem à tona depois das cenas iniciais. Para agitar a relação já desgastada, Kut (Elvis Shelton) e Kristin (Briza Menezes) convidam Axel (Flavio Barollo) e Adélia (Patrícia Castilho) para literalmente se divertirem a quatro. O objetivo é que o desejo entre o casal fosse reavivado, porém a receita do bolo desanda. Kristin se apaixona pelo amigo do casal e é punida pela traição; já o marido permanece com as duas mulheres, reafirmando o padrão machista da época de Strindberg e, diga-se a verdade, o padrão machista vigente até hoje!

O diretor confessa que, pela solução dada pelo autor sueco, resolveu interferir: “Mesmo não tendo mudado muita coisa até hoje, resolvemos rever esta posição. Como a traição masculina é aceita e a feminina condenada, fiz uso de dois finais: o do Strindberg, e no outro, inventei. A mulher dá o troco no marido”, diz Baskerville.

O destaque da montagem é justamente a inusitada tenda inflável, instalação criada pelo grupo Casa da Lapa. Além da direção, Nelson Baskerville é o responsável pela iluminação e trilha sonora do espetáculo. E justamente por se envolver em todo o processo de produção — na premiadíssima Luís Antonio Gabriela e na recente Os Sete Gatinhos —, fico com uma dúvida. Será que os espetáculos de Baskerville não começam a ter uma concepção cênica única, mesmo com autores, épocas e temáticas tão díspares e complexas?

Saí de Brincando com Fogo com esta impressão.

Roteiro:
Brincando com Fogo
. Texto: August Strindberg. Tradução: Denise Weinberg. Direção: Nelson Baskerville. Elenco: Briza Menezes, Elvis Shelton, Flavio Barollo, Patrícia Castilho e Adilson Azevedo. Luz e trilha sonora: Nelson Baskerville. Cenário e adereços: Julio Dojcsar. Figurino: Silvana Marcondes. Vídeos: André Collazzi. Operador de luz, som e vídeo: Igor Sane. Contrarregra: Jamil Kubruk. Projeto gráfico e ass. de figurino: Amanda Vieira. Fotos: Ligia Jardim. Arte educadora: Adriana Lobo Martins. Produção executiva: Leandro Viana. Coordenação do projeto: Ricardo Barollo. Direção de produção: Luque Daltrozo. Idealização: Cia. Mamba de Artes e ONG Viva Cultura

Serviço:
SESC Pompéia – Caixa Cênica (60 lugares), Rua Clélia, 93 – Tel. 3871.7700. Sextas e sábados às 21h30; domingos às 19h30. Ingressos: R$ 20, R$ 10 (usuário matriculado no SESC e dependentes, +60 anos, estudantes e professores da rede pública de ensino) e R$ 5 (trabalhador no comércio e serviço matriculado no SESC e dependentes). Informações da bilheteria: você pode comprar os ingressos em qualquer unidade.  www.sescsp.org.br/pompeia. Duração: 70 minutos. Recomendação: 14 anos.Temporada: até dia 08 de abril.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

5 Comentários
  1. Não seria a ‘identidade’ que todo diretor busca? por que você coloca a questão no final de maneira tão pejorativa? achei sua colocação um tanto quanto superficial. se você puder dar mais profundidade a sua tese, eu agradeço.

    1. há uma busca por uma identidade discursiva no campo estético? o pejorativo pode ser a inadequação do discurso utilizado? o que é a busca pela identidade e o que é a repetição pela repetição, como separar as hipóteses?

  2. ‎’Será que os espetáculos de Baskerville não começam a ter uma concepção cênica única… ‘
    Por favor, alguém explica pro crítico que um artista precisa repetir padrões para se aprofundar.
    Os grandes gênios da arte mundial, só chegaram a este estágio após muita, muita repetição de padrões.
    Quantas pinceladas impressionistas Matisse utilizou em seus quadros? Quantos quadros cubistas Picasso pintou? Quantas bandeirinhas de festa junina Volpi pintou? Quantos ie-ie-ies foram utilizados pelos Beatles? Quantas vezes Betthoven utilizou o acorde Ré menor? Quantos personagens vestindo terno preto e segurando guarda-chuva será que Tadeusz Kantor colocou em cena? Quantos atores já ficaram nús nos espetáculos do José Celso Martines Correa? Quantos tijolos, melancias e ovos foram quebrados por Frank Castorf?
    Quantas vezes Bertold Bretch quebrou a ‘quarta parede’?

    Acho que a isso podemos dar o nome de estética…
    E sim é possível perceber, assistindo 17x Nelson, Por que a criança cozinha na polenta, Luis Antonio-Gabriela, 17x Nelson parte II, Os sete gatinhos e agora Brincando com fogo, que o diretor Nelson Baskerville está desenvolvendo uma estética particular própria…
    E somente repetindo elementos estéticos poderá evoluir dentro de sua pesquisa de linguagem e encenação… E que se repita pelo tempo que for necessário!

    1. não sou advogado de maurício, tampouco vi a montagem. sou a favor da repetição quando ela faz sentido, não apenas como mero efeito cênico tão somente ocupado em repetições plástica sem preocupação estética. pq não vi o espetáculo não posso opinar, repito, mas vamos refletir sobre estética e plástica.

    2. Então Michel… É muito bom mesmo refletirmos sobre estética e plástica, pois existem várias definições para estética. Inclusive o uso da palavra estética vem do grego e significa algo como ‘sensação’; e foram os próprios filósofos gregos os primeiros a usarem o termo, que para eles nada mais era do que o ‘estudo sobre o belo artístico’… Obviamente com o decorrer dos séculos a definição para estética mudou muito. Vieram Hegel, Kant, Marx, Husserl e muitos outros que utilizaram a
      palavra para suas próprias finalidades filosóficas ou científicas…

      Entretanto voltando a questão inicial, podemos perceber através da continuidade da utilização dos mesmos recursos cênicos através de seus espetáculo, que o diretor
      em questão está nitidamente procurando estabelecer a sua ‘maneira’ de se contar uma
      história, ou como vc colocou no post anterior, uma ‘identidade discursiva no campo estético’. Não há dúvidas. É nítido a intenção do mesmo. O resultado entretanto é o que pode ser questinado: funcionou estéticamente ou é só um ‘mero efeito cênico tão somente ocupado em repetições plástica’ e que pode ser descartado do espetáculo sem prejuízo do mesmo?

      Mas para se chegar a este questão, primeiramente é preciso repetir, experimentar. Para depois excluir o que não funciona mais… Ou o que não funciona para aquele espetáculo em questão…

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