Teatro dá adeus a José Renato

Michel Fernandes, do Aplauso Brasil (michel@aplausobrasil.com)

O Teatro murcho: morreu Zé Renato

Uma das figuras mais importantes da História do Teatro Brasileiro, o ator e diretor José Renato, um dos fundadores do Teatro de Arena, morreu na madrugada de domingo (1º) para segunda-feira (2), quando ia embarcar para o Rio de Janeiro, como faz sempre após o espetáculo em que estava em cartaz, Doze Homens e Uma Sentença.

Ele deixa um importante legado teatral como a primeira montagem, em 1958, de Eles Não Usam Black-tie, e a criação/ manutenção do Centro Popular de Cultura (CPC) da UNE.

Abaixo segue o texto que o jornalista, ator e companheiro de cena em Doze Homens…, Oswaldo Mendes, escreveu sobre Zé Renato.

Zé Renato

José Renato Pécora morreu no início da madrugada desta segunda-feira, 2 de maio, em São Paulo. Terminada a sessão de ontem de “12 homens e uma sentença”, ele foi jantar como de hábito no Planetas e de lá uma amiga o levou ao Terminal do Tietê onde ele pegaria o ônibus da meia-noite para o Rio. Ela o deixou na área de acesso ao terminal e, horas depois, recebeu ligação da enfermeira do Pronto Socorro de Santana, na Voluntários da Pátria, que localizou seu telefone no celular do próprio Zé Renato, comunicando a sua morte.

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Avisados, fomos ao Pronto Socorro – Eduardo Tolentino e Lola, Zecarlos Machado e Rosa, Riba Carlovich, Eduardo Semerjian, Ricardo Dantos e eu – e em vão tentamos localizar o Guilherme, filho do Zé, que mora em um flat em São Paulo. Sua mulher, Angela, e o filho estão vindo de carro do Rio para São Paulo e devem chegar por volta das 10 horas. Nada, nenhuma providência pudemos tomar, pois tudo depende da presença de alguém da família para liberação do corpo, segundo os procedimentos legais. Portanto, não posso informar sobre velório e local de sepultamento. Peço que fiquem atentos no Facebook e deixo o telefone do galpão do grupo Tapa: 3662-1488.
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Após a sessão de domingo, eu me despedi do Zé, na porta do Teatro Imprensa, e ainda brincamos que por pouco não viajaríamos juntos para o Rio, onde tenho um compromisso de trabalho nesta segunda à tarde e na manhã de terça-feira. Minha viagem já estava marcada para a manhã de hoje, segunda. Ele preferia sempre viajar à noite para amanhecer no Rio. Desta vez, um enfarte interrompeu sua viagem e seus muitos planos de trabalho.
José Renato, que voltou a atuar como ator depois de 56 anos, estava em um momento feliz. O sucesso de “12 homens e uma sentença” é, especialmente, o sucesso dele que, por ter feito a sua trajetória no teatro como diretor, desde que criou o Arena, não tinha provado o reconhecimento das plateias, em especial dos muito jovens que assistem ao espetáculo. Reconhecimento que agora ele experimentou com uma alegria juvenil que nós, que dividíamos o camarim com ele, testemunhamos nesses sete meses de temporada.
O Zé ria, fazia e provocava piadas, formava o nosso coral que todas as noites desengavetava um repertório de músicas do passado, em exercício de puxar pela memória. Era assim o “aquecimento” e a “concentração” de rotina antes do espetáculo. Uma noite, de tanto rir das brincadeiras do Riba, do Norival Rizzo e da Ieda, nossa fiel camareira, ele desabafou com um sorriso largo: “Vocês ainda vão me provocar um enfarte de tanto rir”.

Na sessão deste domingo, ele trocou uma palavra do seu texto, que só o elenco percebeu. Em vez de dizer “o velho queria um pouco de atenção” ele disse: “o velho queria um pouco mais de tempo”. Me fugiu a palavra, ele se desculpou sorrindo no camarim ao final do espetáculo. Pois é, tanto ele como todos nós queríamos um pouco mais de tempo para o nosso encontro. Não fomos atendidos.
Fica em nós a saudade, que dói demais. Mas fica também a certeza de que José Renato marcou definitivamente o teatro brasileiro – e, em particular, marcou a vida e o caminho de cada um de nós.
Obrigado, Zé.
Do amigo e discípulo Oswaldo Mendes

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

17 Comentários
  1. Há mais de 25 anos dedico meus dias profissionais e de lazer ao teatro. E diariamente sou recompensada por isso. Um dos motivos foi conhecer, não mais do que gostaria, e trabalhar com Zé Renato, personificação do bom teatro. Gentileza e delicadeza indiscutíveis e um conhecedor da arte da palavra falada. Dois abraços carinhosos: um em você e outro em Paulo Autran. Bom espetáculo aí em cima. Bem lá em cima! No topo. No Olímpo!

  2. Uma grande perda não só ao teatro, mas ao País, tão carente de bons exemplos, como era o Zé Renato, dedicado ao seu ofício de diretor e, agora, sem saber, perto do seu fim, como ator. Vai deixar muitas saudades!

  3. Mais uma grande perda pra nós que ficamos.
    É que aí no topo devem estar precisando de voce também , né Zé?
    Bom trabalho e que continue sempre iluminado – no palco e na nova velha vida.

  4. Teabalhei com Zé Renato, uma única vez . Foi no final de 2010 na peça ´´Santa Joana dos Matadouros´´. Aprendi muito com ele: uma pessoa generosa, pacenciosa e um vigôr raro de se ver. Ele vai nos deixar muita saudade.
    Nezito Reis

  5. José Renato.
    Minha memória afetiva guarda guarda bem vivas as imagens de Eles não usam black tie, de Flávia, cabeça, tronco e membros – meu segundo exame público na EAD por ele dirigido. Tantas décadas passadas e a permanência do sentimento da alegria exalada do seu trabalho, uma alegria que ele repartia assim, simplesmente.

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