Teatro da Vertigem encena espetáculo nas ruas do Bom Retiro

Maurício Mellone, editor do Favo do Mellone site parceiro do Aplauso Brasil (aplausobrasil@aplausobrasil.com)

"Bom Retiro 958 metros"

Com direção de Antônio Araújo e dramaturgia de Joca Rainers Terron, o grupo apresenta a peça Bom Retiro 958 metros em que o público acompanha os atores pelas ruas do bairro conhecido pelo comércio de roupas

SÃO PAULO – Mais uma vez o Teatro da Vertigem em seu novo espetáculo, Bom Retiro 958 metros, reafirma sua proposta dramatúrgica experimental, em que as montagens nunca são encenadas em teatros tradicionais. Se eles já se apresentaram em igreja (Paraíso Perdido), em hospital (O Livro de Jó), em presídio (Apocalipse 1,11), em hotel abandonado (em Lima, Peru) e até no rio Tietê (BR-3), desta vez a inovação perdura. Durante duas horas o público percorre as ruas do bairro paulistano do Bom Retiro, conhecido por seu comércio voltado para moda, acompanhando os atores que desenvolvem esquetes sobre os personagens e o ambiente da região. Se durante o dia o bairro é supermovimentado, durante a noite parece terra de ninguém, um local fantasma, com as ruas vazias e todas as lojas e galerias fechadas. É neste ambiente que o diretor Antônio Araújo focou seu novo trabalho.

Com dramaturgia de Joca Rainers Terron, as histórias e esquetes retratam desde o dia-a-dia de costureiras, faxineiras e trabalhadores das lojas, o burburinho de consumidores ansiosos por produtos e lançamentos até o mundo particular de manequins, que se humanizam e passam a dividir a cena com os compradores e vendedores do bairro.

Tudo é diferenciado nesta montagem: os ingressos não são vendidos no local da apresentação (já que não existe um local fixo), somente por telefone ou pelo site. Ao chegar ao ponto de encontro — as oficinas Oswald de Andrade —, o espectador checa seu nome na lista e recebe a instrução de se locomover até à rua onde a peça deve começar (isto não é nada animador se a pessoa for sozinha como eu fui, pois tem de percorrer alguns quarteirões a pé, num local ermo e escuro…).

"Bom Retiro 958 metros"

O desconforto só acaba com a chegada dos atores: os primeiros são empregados que chegam para abastecer os estoques. A galeria é aberta e tem início propriamente dito o espetáculo: o público é conduzido para dentro da galeria e os esquetes são apresentados.

Uma faxineira explica a uma candidata a um emprego que a seleção só começa pela manhã; em seguida há cenas de manequins que dançam, mas são interrompidos por um morador de rua que insiste em ser atendido.

A noiva (sempre em locais muito altos e acima do público) quer saber como se locomover pelas ruas do bairro; há ainda a costureira que, quase em sistema de escravidão, conta as agruras e os bastidores da moda, sempre vista como glamourosa mas que no fundo encobre injustiça e exploração da mão de obra.

A todo o momento os espectadores precisam abrir espaço para que consumidores ávidos possam se locomover para poder fazer suas infindáveis compras.

Os esquetes são apresentados em diversos locais da galeria e em seguida ganham as ruas: os personagens, já conhecidos, continuam suas histórias e o público passa a ser também elemento da montagem, já que os transeuntes param para observar tudo o que está acontecendo. Em cruzamentos das ruas, a produção consegue interromper o trânsito e algumas cenas acontecem ali mesmo!

As cenas finais acontecem no Teatro Taib, que está abandonado: primeiramente no saguão e depois na sala de espetáculo; os espectadores ficam na plateia e depois sobem ao palco. O final acontece novamente na rua, enfrente ao velho teatro.

Bom Retiro 958 metros tem como ponto de partida o desejo de fazer do espaço urbano um campo de experimentação artística. O que agora se compartilha com o público é uma criação dramatúrgica e cênica resultante da experiência de imersão do Teatro da Vertigem no bairro do Bom Retiro”, afirma o diretor no encarte da peça.

Por percorrer os ditos 958 metros do título do espetáculo, o público passa a ser mais um elemento da montagem, o que por si só é uma experiência enriquecedora.

No entanto, senti uma dispersão das pessoas, exatamente pela estrutura proposta pelo grupo: muito do que é dito e encenado se perde. Mas a plateia paulistana deve prestigiar mais este trabalho instigante do Teatro da Vertigem. A encenação permanece em cartaz até setembro, não havendo espetáculo em dias chuvosos.

Fotos: Flavio Morbach

Roteiro:
Bom Retiro 958 metros. Dramaturgo: Joca Reiners Terron. Concepção e direção geral: Antônio Araújo. Co-direção: Eliana Monteiro. Elenco: Luciana Schwinden, Mawusi Tulani, Roberto Audio, Raquel Morales, Sofia Boito, Conrado Caputto. Kathia Bissoli. João Attuy. Icaro Rodrigues. Samuel Vieira. Beatriz Macedo. Naiara Soares. Renato Caetano e Elton Santos. Atriz convidada: Laetitia Augustin-Viguier. Desenho de luz: Guilherme Bonfanti. Direção de arte: Carlos Teixeira. Figurinos: Marcelo Sommer. Imagem Grissel Piguillem. Trilha sonora original: Erico Theobaldo e Miguel Caldas. Fotografia: Flavio Morbach.

Serviço:
Ponto de encontro: Oficina Cultural Oswald de Andrade,  rua Três Rios, 363. Tel: 011 3255 2713. Horários: quinta a sábado às 21h e domingo às 19h (a produção recomenda ao público que chegue 15 minutos antes do início para a locomoção até o local do espetáculo). Ingressos: R$ 30,00 inteira (vendidos somente pelo telefone 11 40035588 ou pelo site www.ticketsforfun.com.br (os ingressos NÃO SERÃO vendidos no local).Promoção de ingressos: meia para estudantes, aposentados e 50% de desconto para clientes do cartão Petrobras (na compra de até 2 ingressos). O espetáculo será cancelado em dias de chuva.Temporada: até 30 de set/ 2012.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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