ENTREVISTA: TEXTO INÉDITO DO ESCRITOR HAROLD PINTER ESTREIA NO SESC VILA MARIANA

Texto atualizado em 19/09  (0h30).
Nanda Rovere, do Aplauso Brasil (nanda@aplausobrasil.com.br) 

"Terra de ninguém. Crédito/foto: Leekyung Kim
“Terra de Ninguém”. Crédito/foto: Leekyung Kim

 SÃO PAULO – Terra de Ninguém, peça teatral do inglês Harold Pinter, ganha a sua primeira versão brasileira sob a direção de Roberto Alvim, que também é responsável pela tradução do texto. Alvim assina pela segunda vez a direção de um espetáculo baseado na obra de Pinter. O primeiro foi O Quarto, que ganhou o Prêmio BRAVO! Prime 2009 de melhor espetáculo de teatro de São Paulo. A montagem teria a participação de José Wilker, papel agora vivido por Edwin Luisi. Alem de Luisi, integram o elenco: Luis Melo, Caco Ciocler e Pedro Henrique Moutinho. A peça estreia sexta,19, às 21h00, noTeatro do SESC Vila Mariana. 

A montagem traz um clima sombrio e delirante para contar uma história perigosa e misteriosa. Na trama, um rico homem (Edwin Luisi) está caminhando pelas ruas quando encontra um pobre (Luis Melo) e o convida para ir até a sua casa. Eles bebem e estabelecem entre si um jogo de poder degradante.

A sanidade e o realismo dão lugar ao delírio no momento em jovens violentos interpretados por Caco Ciocler e Pedro Henrique Moutinho se juntam aos dois. A peça tem uma carga homoerótica muito forte e os personagens estabelecem uma relação paranoica, que retrata a degradação do ser humano.

Vida e morte, sonho e realidade se misturam. Os personagens perdem as suas identidades e tentam recuperá-las a qualquer custo.. O palco se transforma num espaço instável, tenso e perturbador.

¨O espetáculo começa de maneira bem realista e vai entrando num delírio completo, que faz com o que público saia do teatro sabendo menos daqueles personagens do que ao entrar”, fala o diretor Roberto Alvim.

Alvim imprime em seus trabalhos um ambiente de penumbra e praticamente não há nenhum movimento dos atores, valorizando assim os diálogos e a força dramática do elenco. Nesse espetáculo, o diretor mantém a pouca luz, mas os personagens serão mais dinâmicos em cena.

Na opinião do diretor, Terra de Ninguém é obra prima do teatro mundial. ¨Eu sempre tive vontade de montar, mas estava esperando chegar à formação de elenco ideal. No Man’s Land sempre teve montagens com grandes nomes das artes cênicas e a força dele pede isso. Temos um quarteto extremamente adequado para a peça: os papéis se encaixam muito bem em cada um dos atores escolhidos para o elenco e o quarteto tem uma ótima sintonia em cena”, conta Alvim.

Para reforçar o tom sombrio da montagem o palco é forrado com um piso de mármore escuro e tem parede cheia de garrafas ao fundo. O figurino traz roupas escuras inspiradas no universo do filme Laranja Mecânica e com forte influência dark e dândi.

Conheça Terra de Ninguém e Roberto Alvim nas palavras de Caco Ciocler:

Aplauso Brasil:  Como é trabalhar com um diretor que traz uma estética e ideias tão particulares (pensa o teatro contemporâneo brasileiro de uma maneira muito interessante e até mesmo transgressora, e que por isso mesmo conquista muitas críticas negativas do público e crítica)?

Caco Ciocler: Todo artista traz (ou deveria trazer) ideias e estéticas particulares. Você olha para um Picasso e sabe que é um Picasso! Olha para um Van Gogh e sabe que é um Van Gogh. Olha para um ator e reconhece em seus personagens traços estéticos e ideias! Todos os grandes diretores de cinema trazem estéticos e ideias particulares. Você vê um Lars Von Trier e sabe que é um Lars Von Trier. Todos os grandes diretores de teatro também. Tudo o que está no campo do reconhecível, daquilo que já existe, não interessa ao artista!  O Alvim criou algo novo. E dedica sua vida à pesquisa e à reinscrição constante do que acredita ser o teatro. E a vida. É como ele enxerga a vida e a arte. Ele não está tentando dizer que essa é a única maneira de se enxergar a vida e a arte. Mas é a maneira que ele enxerga. Nesse sentido, as criticas negativas (e as positivas também, que não são poucas) não têm a menor importância. Para mim é um prazer trabalhar com um artista completamente comprometido com sua visão de mundo. Isso está ficando cada vez mais raro.

AB:  O que mais chamou a atenção nessa obra de Pinter?

CC: Quando Pinter surgiu foi rechaçado pela critica. Diziam que sua obra tinha uns buracos. Ele respondeu que as pessoas que diziam isso não sabiam o trabalho que ele tivera para construir esses buracos. O que mais me chamou a atenção foram justamente esses buracos negros da obra. As coisas não fecham. Você tá sempre caindo num buraco. Se você para de resistir, fica uma delícia!

AB:  O delírio domina a trama. Além disso, diz que os ¨personagens Spooner e Hirst têm uma  relação paranoica em uma peça com uma carga homoerótica muito forte¨.  Como isso tudo é levado  para a cena?

CC: Tudo isso é levado para a cena com o rigor próprio do Alvim. No inicio dos ensaios a gente teve total liberdade para propormos intuições. Alvim assistiu a tudo, devolvia seu olhar. Depois ele passou a formalizar e a condensar nossas ideias. Terra de Ninguém é una terra onde não existe ainda o ALGUÉM. Uma terra onde os vários ALGUÉNS serão inscritos num jogo de poder.

Sobre Roberto Alvim:
Roberto Alvim é dramaturgo, diretor e professor de Artes Cênicas, formado pela Cal – Casa das Artes de Laranjeiras, no Rio de janeiro.. Escreveu e dirigiu 20 peças até o momento, encenadas no Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba, Brasília, Salvador, Paris (França), Córdoba (Argentina) e Laussanne (Suíça). Em 2006 Alvim transferiu-se para São Paulo e criou com a atriz Juliana Galdino a companhia Club Noir, que pretende revelar novos dramaturgos brasileiros. As suas encenações trabalham com a chamada estética da penumbra. O diretor utiliza o palco para representar a escuridão caótica, através da palavra. Entre as montagens estão Comunicação a uma academia, 45 minutos e A Construção ( com Caco Ciocler) e Tríptico Samuel Becket. No livro Dramáticas do Transumano (Ed. 7 Letras), conceitua a dramaturgia contemporânea, entendendo o artista como um pensador que coloca com centro da encenação a palavra, num espaço dominado pelo contraste entre luz e escuridão e que dialogue com o homem atual através do seu inconsciente.

 Ficha Técnica:

Texto: Harold  Pinter Pinter

Direção, tradução e adaptação: Roberto Alvim

Serviço:

Terra de Ninguém
Estreia dia 19 de setembro, sexta-feira, às 21 horas, no Teatro do Sesc Vila Mariana. Duração – 70 minutos. Espetáculo recomendável para maiores de 16 anos. Temporada – Sexta-feira e sábado às 21 horas e domingo às 18 horas. Ingressos – R$ 50,00; R$ 25,00 (usuário matriculado, estudante com carteirinha e aposentado) e R$ 15,00 (trabalhador no comércio e serviços matriculado e dependentes). Até 26 de outubro.*Nos dias 5 e 26 de outubro, domingo, não haverá apresentação.**Nos dias 4 e 25 de outubro, sábado, haverá também apresentações, às 18 horas.

SESC Vila Mariana – Rua Pelotas, 141 – Vila Mariana (próximo à estação Ana Rosa do metrô). Fone: (11) 5080-3000. Acesso para deficientes físicos. Bilheteria – De terça a sexta-feira das 9 às 21h30, sábado das 10 às 21 horas e domingos e feriados das 9 às 18h30 (ingressos à venda em todas as unidades do SESC). Capacidade do Teatro – 608 lugares. Estacionamento – R$ 6,00 a primeira hora e R$ 2,00 por hora adicional (não matriculado) e R$ 3,00 a primeira hora e R$ 1,00 por hora adicional (matriculado no SESC). www.sescsp.org.br.

 

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