“Todos os Sonhos do Mundo” combina performatividade e poesia para falar sobre a depressão

 

Todos os Sonhos do Mundo por Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez.
Atuação: Ivam Cabral.
Direção: Rodolfo García Vázquez.
Fotografias: Andre Stefano.

SÃO PAULO – Desde 2015, o ator e dramaturgo Ivam Cabral vem pesquisando a gramática teatral para um espetáculo solo, de características performativas, que deveria conter relatos sobre sua origem em Ribeirão Claro (pequena cidade da região norte do Paraná), sua trajetória artística e, principalmente, sua batalha diária contra a depressão.

 

A carreira premiada no Brasil e no exterior e o sucesso de público e crítica por décadas, com sua companhia Os Satyros, deixavam o artista relutante em aceitar a doença e buscar tratamento adequado. Até que, graças à indicação de um colega, o crítico teatral Michel Fernandes, conheceu a obra O demônio do meio-dia, de Andrew Solomon, livro- chave para o estudo e compreensão da depressão, eleito uma das cem melhores publicações da década de 2000 pelo jornal britânico The Times.

 

Com o livro em sua cabeceira, procurou tratamentos médicos e terapêuticos adequados, e passou a revisitar suas experiências de vida e os personagens que cruzaram seu caminho.

 

O projeto começou de modo bastante informal, por meio de encontros esporádicos com a classe artística na sede do grupo, localizada na Praça Roosevelt, região central da capital paulista. A proposta era que o artista se exercitasse em uma estrutura experimental, que combinava elementos épicos e performativos, uma master class e um sarau poético. Após cada um desses encontros, debatia com o diretor Rodolfo García Vázquez as formas de potencializar cenicamente a experiência, sem perder, porém, a natureza confessional e o contato próximo com público.

 

Entre 2015 e 2018, a dupla iniciou um work in progress minucioso, apresentando essa investigação em diversas cidades do Estado de São Paulo. A recepção do trabalho por parte de público e crítica, a pesquisa contínua e a experimentação constante de novos procedimentos catalisaram mais força para o projeto, tanto em seu aspecto documental quanto metafísico, levando o artista à essa versão da montagem que estreia no dia 20 de novembro, no Espaço dos Satyros Um.

 

A estrutura cênica é simples: um palco vazio, um ator desprovido de qualquer figurino ou adereço, um iPad que contextualiza a cena contemporaneamente, um diálogo direto com o público. Ancorado por uma dramaturgia construída a partir de histórias pessoais do ator, tomam corpo relatos sobre a infância, dos últimos dias do irmão e melhor amigo, do evento surreal e subversivo da Jane, moradora da cidade natal, narrativas profundamente humanas que são compartilhadas com os espectadores de maneira corajosa.

 

O performer atravessa essas “fábulas reais” com a leitura de poemas, sobretudo de autores que se suicidaram ou que também sofriam com depressão. Há desde versos do autor decadentista Mário de Sá-Carneiro e da ícone feminista Florbela Espanca, ambos portugueses de alma complexa que terminaram seus dias com o suicídio, até poemas de Serguei Iessienin, Aleksandr Blok, Rainer Maria Rilke, Konstantinos Kaváfis e Alfonsina Storni, vertidos para o português por Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez, seja a partir do original ou de outras versões.

 

Complementando, durante o “Setembro Amarelo”, campanha mundial dedicada à prevenção do suicídio, Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez lançaram pela editora Giostri o livro Todos os Sonhos do Mundo (120 páginas, R$ 40), que contém a dramaturgia do espetáculo.

 

Serviço

Todos os Sonhos do Mundo

Concepção: Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez

Direção: Rodolfo García Vázquez

Atuação: Ivam Cabral

 

Duração: 60 min.

Local: Satyros Um (Praça Franklin Roosevelt, 214)

Temporada: 20 de novembro a 15 de dezembro. De quarta a sábado, às 21h; aos domingos, às 19h.

Ingressos: R$ 30 (inteira), R$ 15 (estudantes e classe artística) e R$ 5 (moradores da Praça Roosevelt)

Kyra Piscitelli

Kyra Piscitelli é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e fez pós-graduação em Globalização e Cultura pela Faculdade de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Escreve sobre teatro e arte desde de 2009. Integra os Juris da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e do Prêmio Aplauso Brasil. Ávida por conhecimento, se não está em viagem ou estudo, só há um lugar para achá-la: o teatro!

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