Transexuais, “Teatro Expandido” e “Teatros do Real” em Hipóteses Para o Amor e a Verdade n’ Os Satyros

Michel Fernandes, do Aplauso Brasil (michel@aplausobrasil.com)

Phedra D' Córdoba e Esther Antunes em HIPÓTESES PARA O AMOR E A VERDADE

Estreia logo mais um instigante trabalho da Cia. de Teatro Os Satyros com propostas que prometem abalar a forma tradicional em que o teatro se apresenta. Hipóteses Para o Amor e a Verdade, texto de Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez, que também assina a direção, busca investigar a linguagem que batizaram de “Teatro Expandido”.

No elenco atores, não atores e três transexuais: uma delas a diva da companhia, a deliciosa e dona de talento ímpar, Phedra D’ Córdoba. A trama e personagens surgiram nas entrevistas realizadas com a população que circunda a Praça Roosevelt. E posso garantir que a fauna de tipos humanos é bastante diversificada.

Antes de entrar no enredo da peça, peço licença ao senhor leitor para observar um dos motivos que mais me instiga a assistir a peça: no artigo “Teatros do Real”, um dos brilhantes textos de Teatralidades Contemporâneas, escrito por Sílvia Fernandes – uma de nossas mais competentes teóricas de teatro –, é apontado como característica da linguagem teatral contemporânea essa mescla de ficção e verdade, apoiada numa representação que rejeita o naturalismo, bem como o engajamento político didático, o foco da ação no indivíduo e como ele dialoga com seu meio social. E essa parece ser a proposta de Hipóteses Para o Amor e a Verdade que tem como mote a vida de pessoas anônimas do centro de São Paulo, suas crenças e seus afetos diante da Nova Humanidade.

Luiza Gottschalk

O espetáculo também discute os caminhos do teatro no novo milênio, onde se apresentam conceitos e procedimentos inéditos como realidade expandida, pós-homem, engenharia genética e virtualidade. Estas situações teatrais são apresentadas de forma aleatória, com várias intervenções tecnológicas tanto da parte dos atores quanto dos espectadores, propondo novas formas de relação teatral. Os espectadores são convidados a participar de um espetáculo de teatro expandido e deixar, por exemplo, seus telefones celulares ligados durante toda a apresentação, pois várias das situações propostas pelo elenco serão realizadas através de recursos do celular.

Entre as diversas situações teatrais, surgem personagens como o nerd solitário que só se realiza amorosa e sexualmente através da internet; o Adão do século 21; a prostituta Madalena que trabalha na noite; a velha catatônica e sua enfermeira; o gerente de fábrica amante da luxúria; a travesti que é guia turística das micro-humanidades do centro e o Homem-Bomba, surgido em uma transformação ocorrida num presídio feminino.
No meio deste turbilhão em que o real e o virtual se fundem, o biológico e o tecnológico se indistinguem, a identidade e a alteridade se diluem, a Humanidade acaba se redefinindo. Os velhos conceitos do que é humano desabaram.

Realidade Expandida

Nossa vida hoje mal consegue reconhecer o real e o virtual, torna-se interativa em tempo real e está assumindo a 3D. A ideia do Humano já não pode ser mais restrita ao conceito clássico. O ser humano assumiu uma miríade de personas, reais e virtuais, analógicas ou digitais, fisicamente naturais ou fabricadas artificialmente que acabam muitas vezes por se desprender do corpo que as criou.

Como se torna a experiência humana neste Admirável Mundo Tecnológico? Como se transforma a solidão com a utilização de um celular, MSN, Internet, Orkut, Facebook, Twitter?

Podemos considerar que a experiência da solidão se modificou? E quanto ao amor? É possível pensar o Amor com as categorias clássicas do Romantismo burguês?

Os atores vão, ao vivo, realizar performances com câmeras digitais, mensagens de texto, sites e salas de bate papo na internet, bluetooth, entre outros recursos. Tudo isto em tempo real.

Os espectadores serão convidados a participar da experiência, deixando seus celulares ligados, para que o contato virtual seja possível durante toda a apresentação. Caso os espectadores recebam ligações pessoais, eles poderão atendê-las durante o espetáculo, sem nenhum constrangimento. O espetáculo vai incluir todas as manifestações da máquina-alterego chamada celular. Aos espectadores com equipamentos de celular mais avançados, será possível também navegar ao vivo, interagir com os atores e compartilhar dos sites e programas que estarão sendo acessados pelos atores.

O Elenco
O elenco trouxe uma importante contribuição para o processo de elaboração do roteiro do espetáculo, tanto no sentido de relatar sensações, observações e vivências desta Nova Humanidade, quanto ao colocar seus próprios corpos ao dispor da cena. As experiências pessoais dos atores, sua percepção do mundo e de seus corpos como signos teatrais neste ambiente tecnológico em que vivemos, foram fundamentais para o processo.

Composto por atores com e sem treinamento formal, integram o elenco: Luiza Gottschalk, Marcelo Szykman, Tânia Granussi, Paulinho Faria, Tiago Leal, e quatro transexuais propositalmente incorporados nesta aventura cênica.

Phedra De Córdoba é uma transexual cubana que entrou para Os Satyros em 2003, época da inserção do nosso grupo na realidade da Praça Roosevelt. Seu corpo em cena será a manifestação viva, documento biológico da integração do grupo à Praça.

Esther Antunes é atriz transexual. Viveu no meio teatral durante 30 anos, antes de seu processo de reconstrução de identidade de gênero, como diretor e ator. Em Hipóteses Para o Amor e a Verdade, Esther inicia agora uma nova carreira, com sua nova identidade sexual. Trata-se, portanto, de um corpo feminino de uma atriz iniciante, apesar de seu corpo também carregar a memória do corpo masculino que já existiu e viveu durante 30 anos no meio teatral.

Nos anos 1980, houve um grupo de punk rock feminino, cult e único na cena musical off paulistana chamado “As Mercenárias”. Sua baterista, Lu Moreira, acabou nos anos 1990 se envolvendo com o universo das drogas e se afastando da cena musical. Sua redefinição de identidade sexual ocorreu há seis anos, assumindo desde então o nome de Leo Moreira. Apesar de não ter treinamento formal como ator, a memória biográfica de Leo Moreira foi fundamental para o roteiro e a criação do espetáculo.

Também destacamos a trajetória de Luiza Gottschalk, que foi apresentadora de programas de televisão sobre games e outros jogos tecnológicos. Ao participar do espetáculo, Luiza retoma sua experiência com o jogo no ambiente teatral.

Em todos os casos dos transexuais assumidos (2 femininos e 1 masculino), os corpos destes atores nos fazem questionar conceitos considerados perenes: a identidade de gênero, algo que deveria ser imutável, atualmente vem sendo (e pode ser) revisto. Hoje podemos construir, através de vários recursos tecnológicos, a nossa identidade corpórea de acordo com aquilo que entendemos ser verdadeiro em nossa identidade emocional. A transexualidade tecnológica é uma das manifestações da Nova Humanidade.

Em cena, estes corpos redefinidos tecnologicamente, virtualmente, experiencialmente; vão portar novos desafios para o espectador e seus conceitos de verdade, real ou cênica.

Teatro Expandido
Uma das principais ideias no processo de elaboração do espetáculo é o Teatro Expandido. Com a evolução tecnológica, os recursos disponíveis para as experiências humanas tornam-se, a cada dia, mais provocadores e transformadores.

Temas como pós-homem e realidade expandida são hoje fundamentais para a compreensão dos caminhos que vamos traçar. O teatro também pode e deve se conectar a estas novas possibilidades. Assim, pretendemos, para o espetáculo, explorar algumas das dimensões tecnológicas disponíveis hoje.

Ainda que estejamos na pré-história dos desdobramentos tecnológicos, já podemos vislumbrar os caminhos que poderão ser percorridos. A Humanidade está sendo redefinida pelo desenvolvimento do mundo virtual, e o Teatro não pode ficar alheio a isto. Quais as implicações destas novas esferas para a experiência teatral?

Mais do que nunca a Nova Humanidade precisa do teatro como experiência corpórea estética única. O Teatro se manifesta com força neste mundo em que o contato físico se torna previsível e descartado. Incorporar a realidade expandida ao Teatro só revigora as potencialidades virtuais do Teatro, ainda inexploradas. O ator expandido será o tema do futuro não muito distante”, diz o material de divulgação que não deve ser desprezado.

Hipóteses para o Amor e a Verdade
Texto:
Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez
Direção: Rodolfo García Vázquez
Assistente de direção: Fábio Penna
Cenário e Figurino: Marcelo Maffei
Iluminação: Rodolfo García Vázquez e Fábio Cabral
Elenco: Esther Antunes, Leo Moreira, Luiza Gottschalk, Marcelo Szykman, Paulinho Faria, Phedra De Córdoba, Tânia Granussi e Tiago Leal
Realização: Os Satyros
Assessoria de Imprensa: Robson Catalunha
Direção de produção: Erika Barbosa
Quando: Sexta, sábado e domingo, 21h30
Onde: Espaço dos Satyros Um – Praça Franklin Roosevelt, 214
Quanto: Ingresso Promocional R$ 10 (preço único)
Lotação: 70 lugares
Duração: 90 min.
Classificação: 18 anos
Estréia: 1 de maio
Temporada: até 20 de junho

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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