Três sátiras de flechadas certeiras

O Papa e a Bruxa BLOG
Parlapatões apresenta O Papa e a Bruxa

Crítica de Afonso Gentil*, especial para o Aplauso Brasil afonsogentil@aplausobrasil.com) 

Em tempos de terror como estes em que o poder público se traveste em magnânimo com o propósito, assim alegado, de prolongar a vida dos cidadãos, mas, que, sabemos, para isso realmente não está em absoluto interessado ( e pobre do “imbecil” que lhe conteste as hipócritas intenções), parece que só resta recorrer ao velho e profícuo recurso da Sátira para enfrentar o monstro da ditadura que ora se instala, numa combinação maquiavélica de “tecnocratas” da saúde com os mandantes da ocasião. 

Diariamente, a mídia abre espaço para esses novos deuses, frios manipuladores de “verdades aterradoras” em suas estatísticas apocalípticas, em que numa só penada se decreta a morte de milhares de criaturas “rebeldes” que insistem em, entre outras heresias, por exemplo, servir-se à mesa de seculares fontes do bem estar físico e espiritual.

Vozes sensatas têm se levantado na boa e isenta mídia (impressa), contra os excessos truculentos desse poder que proíbe, a toda hora e sob qualquer pretexto, anestesiando com métodos nazistas mentes então assombradas com a visão de vida breve, se desobedientes.

Depois desse desabafo  em favor da amada democracia, vamos nos ocupar de três sátiras em cartaz nos teatros da cidade, merecedoras da visita dos internautas:                

VELEIDADES TROPICAIS

O PAPA E A BRUXA  e, pasmem!,

A ESTÓRIA DO FORMIGUINHO  ou DEUS AJUDA OS BÃO

 

 

<i>Veleidades Tropicaes</i>
Veleidades Tropicaes

 

CIA. DO FEIJÃO FAZ CRÍTICA ERUDITA

 

Pedro Pires e Zernesto Pessoa, fundadores da Cia. Do Feijão, costumam trabalhar em surdina, sem o costumeiro alarde de um Antunes Filho, por exemplo (nada contra o mestre!), na fronteira do silêncio. Agora com sede própria (Rua Teodoro Bayma, vizinho do antigo Teatro de Arena, já  lançaram pelos menos três novas montagens (em dois anos?), além de reciclarem  os primeiros sucessos (como Mire e Veja!, super-premiado).

Mantêm ainda um núcleo de fieis companheiros de palco, com alguns novos surgidos em cursos ministrados dentro dos propósitos do fomento teatral local.

Os temas que o grupo põe em cena estão voltados à sátira, dos maus costumes e/ou das mazelas políticas. Faz com a desenvoltura que só a democracia permite, o que o antigo Teatro de Arena “cantava” para espantar o espantalho de ditadura militar.

Neste Veleidades Tropicaes temos um processo de dissecação das várias faces da corrupção, aquela que vem de longe no tempo e no espaço, razão pela qual recorre a Shakespeare e ao nosso Machado de Assis do romance Esaú e Jacó, entre uma dezena de honrosas vozes que usaram das letras para denunciar o mal incrustado no Poder.

A sátira ganha, então, contornos eruditos, sem perder de todo a necessária leveza da ação cênica, graças a uma direção em sintonia com o seu afinado elenco, que sabe dosar  a troça com o sombrio da  denúncia,  em quadros rápidos, de cirúrgica precisão dos meios expressivos. Talvez ainda falte à dupla Pedro Pires e Zernesto Pessoa uma entrega menos sisuda, que por enquanto os aproxima mais dos trabalhos da Cia. Do Latão (seriíssimos, mas de humor ausente e distante), fazendo-nos torcer por um namoro com a seriedade de propósitos, mas nunca dos “meios” de um Hugo Possolo, carro chefe dos Parlapatões.

A Cia. Do Feijão cresce (sem trocadilho) e viceja na cena paulista.

   

 

Peça escrita por Arnaldo Jabor surpreende
Peça escrita por Arnaldo Jabor surpreende

 

ARNALDO JABOR DRAMATURGO É A GRANDE SURPRESA

  

Todo mundo conhece o Jabor dos textos demolidores das 3as. feiras no Caderno 2 de O Estado de São Paulo. Os mais velhos (nem tanto) o conheceram dirigindo filmes que ficaram na história do cinema nacional (Toda Nudez Será Castigada continua sendo o melhor Nelson Rodrigues das telas). Ou como comentarista da TV.

Mas, foi preciso que um grupo de jovens (na verdade, 2 atores e 2 atrizes) saído da Faculdade Anhembi Morumbi há 2 anos descobrisse um velho (mas, atualíssimo, diga-se de passagem) texto teatral satírico, escrito na década de 60 do século passado, em plena ditadura militar, pois, com título quilométrico A Estória do Formiguinho ou Deus Ajuda os Bão), que tem feito as delícias das pequenas platéias que mesmo sem nenhuma publicidade aparecem nas tardes de sábados e domingos (l7h3O) no Teatro Coletivo (ver Serviço).

A direção é de André Martins, que também  atua ao lado de Josi Lopes, Luisa Toledo e Ricardo Almeida, todos de contagiante entusiasmo da mocidade e já afiada verve satírica, mantendo os 50 minutos do impagável texto de Jabor num ritmo eletrizante, com a direção de André sempre atenta às sugestões críticas do texto, que não dá trégua à burocracia criada pela incompetência dos senhores do poder, daqui e de outras plagas. É ver para crer. E rir muito.

 papabruxapeq

O PAPA QUE ENROLA A  BRUXA

O humor transgressivo é marca registrada dos Parlapatões, nos seus mais de dez anos de sucessivas montagens satíricas. E transgressão contra a manipulação dos donos da fé (não contra a Fé) é o que não falta nos 100 minutos de O Papa e a Bruxa, cartaz atual do Espaço Parlapatões (Praça Roosevelt).
 
Hugo Possolo e sua pândega equipe de comediantes foram buscar no premiado autor italiano Dario Fo o combustível necessário para  satirizar os dogmas do Vaticano (celibato dos padres, condenação do uso da camisinha, pesquisa com células troncos), que vem mantendo os católicos à margem das conquistas humanitárias da sociedade ocidental. Dario Fo é contundente na sua dialética laica, conseguindo não ser blasfemo, levantando questões que o Vaticano prefere ladear.

Assim, uma coisa boa é a trama amalucada de Dario Fo; outra, melhor ainda, é o show do Hugo Possolo comediante (e como diretor) durante toda a peça: seu incontrolável (não existe outra forma) dom de improvisação provoca 80% das gargalhadas do público. Raul Barreto e Henrique Stroeter, também eles donos de invejável veia cômica, com papeis mais restritos, dão o necessário apoio ao bufão Hugo, assim os(as) demais do vibrante elenco.

 Hugo Possolo vem honrando a tradição dos ícones Oscarito, Dercy Gonçalves e Grande Otelo, cômicos que levaram, em suas épocas, multidões ao teatro de revista e às chanchadas do cinema nacional.

Não é pecado rir de e com o Papa Hugo Possolo!

*Afonso Gentil é Crítico Teatral filiado a APCA desde 1992

 

VELEIDADES TROPICAES/ Espaço Companhia do Feijão, rua Teodoro Bayma, 68, metrô República, 40 lugares/ fone 3259-9086/ 6a. e sábado 2lh, dom.20h. (grátis nas 6as.) demais diasR$ 20,/14 anos/ até 25/10.

 

.DEUS AJUDA OS BÃO/ Teatro Coletivo, rua da Consolação, 1623, tel. 3255-5922/ metrô Consolação/sábados e domingos às 17h30/ R$ 20, e $ 10/Livre/ até  30/agosto

 

O PAPA E A BRUXA/ Espaço dos Parlapatões, Praça Rooselvet, 158, estacionamento ao lado/fone 3258-4449/metrô República/98 lugares/ 6a. 2lh, sábados às 19 e 22h, domingos às 20h. Ing. De R$7,50 a R$ 20,00, cf. o dia

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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