Última semana: Monólogo de Dario Fo e Franca Rame escrito na década de 1970 se mostra ainda atual em sua versão digital

“Uma Mulher Só”. Foto: Ronaldo Gutierrez

EM REDE – Trancada em sua casa pelo marido, uma mulher se alegra com a chegada de uma nova vizinha, de quem se torna amiga e confidente. É a partir desse mote que se desenvolve o monólogo UMA MULHER SÓ, que estreia no próximo dia 11 de setembro, às 20 horas, pelo Zoom (com acesso e ingressos pelo Sympla). Martha Meola dá vida à essa mulher encarcerada sob a direção de Marco Antônio Pâmio.

Uma Mulher Só já ganhou montagens com Denise Stoklos e Marília Pêra interpretando o papel desempenhado por Martha agora. Esse é o primeiro de uma coletânea de textos sobre a condição feminina, escritos e encenados em 1977 pelo casal Dario Fo e Franca Rame. Marco Antônio Pâmio tem vontade de, assim que os teatros voltarem, produzir uma série com todos esses textos e incluir essa montagemonline que estreia agora, numa versão para palco.

Martha diz que a ideia para estrear o espetáculo surgiu da necessidade de produzir durante a pandemia. “Quando a quarentena chegou, não queria ser engolida pela inércia. Conversei com o Pâmio e, depois de algumas ideias, chegamos a esse texto”. Essa é a 4ª parceria da dupla. Pâmio e Martha já dividiram a cena uma vez como atores e essa é terceira vez que os dois estão em um projeto como atriz e diretor.

A dupla buscou um texto que não fosse tão denso. UMA MULHER SÓ traz um tema pesado mas o apresenta por meio da comédia. “Falamos sobre machismo, objetificação e violência contra a mulher, liberdade sexual, mas tudo por meio da comédia. O riso ainda é um dos melhores caminhos para se chegar à consciência”, comenta Martha. Em cena, sua personagem vê a possibilidade de experimentar um amor sem as amarras do machismo, com liberdade sexual, mas briga com preconceitos enraizados.

“Com todo o retrocesso que vivemos atualmente, vemos que o tema abordado ainda é muito atual e extremamente urgente. Estamos na quarentena, em uma época de isolamento social e ficar em casa é, de certa forma, estar em um refúgio de segurança. Porém, para muitas mulheres, o que deveria ser um abrigo e um lugar de conforto, é exatamente o seu maior risco”, afirma Pâmio. E Martha completa: “É função dos artistas jogar luz em cima desses temas e fazer as pessoas pensarem sobre eles”.

Na sala de casa

Martha acredita que o modelo do teatro digital veio para ficar: “Se tem uma vantagem nele é ver nosso trabalho chegando em lugares que nem um teatro tem. É possível ampliar o alcance e acredito que mesmo quando os teatros voltarem, iremos continuar a produzir para esse híbrido entre o teatro, televisão e o cinema. Tenho levado arte direto da sala da minha casa”.

Acostumada ao audiovisual, Martha acredita que a experiência nessa linguagem ajuda para UMA MULHER SÓ. “Olho para a luz verde da câmara e a encaro como se fosse a plateia. O fato da personagem conversar o tempo inteiro com a vizinha na janela, me coloca numa posição de conversa e interação com a tela também”, conta. Pâmio reforça: “Ter a vizinha na carpintaria dramatúrgica de Dario Fo e Franca Rame nos dá uma possibilidade muito boa de manter um contato próximo com o público e interagir a todo momento”.

“Para mim, esse modelo digital é uma linguagem muito híbrida e nova ainda. Na minha visão, não é teatro, não é TV e não é cinema. Porém, dirigir a Martha em meio a todos esses desafios foi algo muito fácil. Já tínhamos uma sintonia e conhecia os recursos dela como atriz – e são muitos. E desde o início, tinha muito claro na cabeça que queria um resultado próximo do teatro, mesmo apresentando em uma tela”, explica Pâmio.

Seu trabalho foi desenvolvido em conjunto com a direção de movimento de Marco Aurélio Nunes. “Depois que trabalhamos muito o texto para cortar e chegar nos 40 minutos de peça, focamos na questão de movimento corporal que é algo muito forte nesse espetáculo. Foi com esse elemento que conseguimos achar o equilíbrio para a cena: afinal, não podíamos partir para uma movimentação nem muito exagerada, nem muito minimalista”, comenta o diretor.

Uma Mulher Só — Até 27 de setembro, sextas e sábados, às 20 horas, domingo, às 17 horas. Direção – Marco Antônio Pâmio. Interpretação – Martha Meola. Autores – Dario Fo e Franca Rame. Direção de movimento – Marco Aurélio Nunes. Iluminação – Nicolas Caratori. Trilha Original – Gregory Slivar. Direção de arte – Raphael Gama. Operação de som – Alexandre Martins. Fotos – Ronaldo Gutierrez. Produção executiva – Marcela Horta. Direção de produção – Selene Marinho e Sergio Mastropasqua. Duração – 40 minutos (+15 minutos de debate após o espetáculo). Ingressos – De R$ 10,00 a R$ 250,00 (vendas pelo Sympla).

Kyra Piscitelli

Kyra Piscitelli é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e fez pós-graduação em Globalização e Cultura pela Faculdade de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Escreve sobre teatro e arte desde de 2009. Integra os Juris da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e do Prêmio Aplauso Brasil. Ávida por conhecimento, se não está em viagem ou estudo, só há um lugar para achá-la: o teatro!