Última semana para conferir O Filho Eterno

Maurício Mellone, editor do Favo do Mellone site parceiro do Aplauso Brasil (aplausobrasil@aplausobrasil.com)

Pai precisa aprender a lidar com a deficiência do filho

Charles Fricks, melhor ator do prêmio Shell/RJ, interpreta o pai que entra em crise com o nascimento do filho, portador de síndrome de down. Bruno Lara Resende assina a adaptação, do sucesso literário de Cristovão Tozza, e Daneil Herz, a direção

SÃO AULO – Depois de uma temporada de sucesso no Rio de Janeiro, os paulistanos só têm até o próximo domingo (8) para conferir no Teatro Anchieta (SESC Consolação) O Filho Eterno, adaptação teatral do premiado livro de Cristovão Tezza que retrata a difícil relação de um pai com o nascimento de seu primeiro filho, portador de síndrome de down.

A transposição de qualquer obra artística de um veículo para outro é sempre delicada. Quando se trata de um livro que venceu diversos prêmios nacionais e internacionais (inclusive o prêmio Jabuti em 2008) a tarefa é ainda mais árdua. No entanto Bruno Lara Resende foi feliz na adaptação da história de Cristovão Tezza para os palcos: optou por um monólogo, o que acentuou ainda mais o drama do pai que é obrigado a lidar com suas próprias limitações diante do nascimento do primogênito, portador de síndrome de down.

Sob direção de Daneil Herz, Charles Fricks é este pai em crise, o que já lhe rendeu o prêmio Shell/RJ 2012 de melhor ator.

Além da precisa iluminação de Aurélio de Simoni, o ator dispõe de uma única cadeira como cenário para viver o drama daquele pai que, de uma alegria e euforia inicial com a notícia do nascimento de seu primeiro filho, é obrigado a encarar a frustração e a dor com a constatação que o garoto possui uma deficiência mental congênita, chamada de trissomia do 21, em que a criança nasce dotada de três cromossomos 21, e não dois, como é normal. É a chamada síndrome de down, que além de alterações faciais provoca dificuldades de aprendizado, retardo intelectual, doenças no coração e dificuldades na audição.

No entanto, a criança com esta síndrome deve ser estimulada com fisioterapia, fonoaudiologia e educação especial para o desenvolvimento e integração social. Todo este processo é amplamente vivenciado na obra do escritor, que dá ênfase à relação que se estabelece entre pai e filho.
No livro, fiquei com a impressão que a transformação de sentimentos do pai é muito mais sofrida do que no monólogo teatral. Além da passagem da euforia para a frustração depois de constatar a anomalia do filho, há, principalmente, o nascimento do afeto entre o adulto e a criança.

Como toda a história é narrada pelo pai, a revolução interior fica mais evidente no palco, graças ,é claro, à interpretação visceral de Charles Fricks.

O ator Charles Fricks recebeu o Prêmio Shell de Teatro (RJ) pelo trabalho

O ator, em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, acredita que mais do que a dificuldade em lidar com um filho portador de síndrome de down, o texto de Tezza é sobre relacionamento humano.

“Pra mim, o livro é sobre a dificuldade de aceitar o diferente. O que está em questão é, sobretudo, a intolerância; queríamos que a adaptação tivesse esta abrangência”, argumenta Fricks.

O Filho Eterno, em cartaz somente até o próximo domingo, é uma das grandes montagens teatrais da cidade. Pena que a temporada foi tão pequena.

Roteiro:
O Filho Eterno
. Texto: Cristovão Tezza. Adaptação: Bruno Lara Resende. Direção: Daniel Herz. Elenco: Charles Fricks. Figurino: Marcelo Pies. Cenário: Aurora dos Campos. Direção musical: Lucas Marcier. Iluminação: Aurélio de Simoni. Direção de movimento: Márcia Rubin. Fotos: Dalton Valério. Produção Executiva: Ana Lelis e Juliana Moreira

Serviço:

SESC Consolação Teatro Anchieta (280 lugares), Rua Dr. Vila Nova, 245, Tel. 3234.3000. Sextas e sábados, às 21h, e domingos, às 18h. Não haverá sessão no dia 06/04 – feriado. Ingressos: R$ 32 e R$ 16 (usuário matriculado no SESC e dependentes, +60 anos, estudantes e professores da rede pública de ensino). R$ 8 (trabalhador no comércio e serviço matriculado no SESC e dependentes). Formas de pagamento: dinheiro, cheque (à vista) e cartões. Duração: 80 minutos. Não recomendado para menores de 12 anos. Temporada: até 08/04.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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