Última semana: peça “Sentença” fala violência contra a mulher e faz crítica ao sistema legal brasileiro

EM REDE – A peça-filme Sentença  faz temporada até 20 de dezembro com exibição online. Escrita pelo dramaturgo e advogado Eduardo Aleixo, a montagem tem direção de Maria Fernanda Batalha e fala sobre o machismo no sistema legal brasileiro e como isso acaba oprimindo mulheres a denunciarem violências e abusos.  O Projeto foi contemplado pelo Edital PROAC nº 01/2019 de Produção e Temporada de Espetáculos Inéditos de Teatro.

Eduardo Aleixo se incomoda com o assunto da peça desde o ensino médio. “Naquela época, soube de um caso de uma festa em que duas garotas foram mortas e estupradas. Desde então, sempre achei que as pessoas precisam falar mais sobre estupro e ouvir também sobre o assunto. Precisamos falar sobre machismo e violência contra as mulheres para que as pessoas não normalizem essas coisas”, explica o autor.

O dramaturgo Eduardo e o iluminador e diretor de arte Kleber Montanheiro são os únicos homens no projeto. O restante da equipe (seja o núcleo criativo ou profissionais de suporte) é todo composto por mulheres, o que contribui para trazer a discussão mais próxima do que é a realidade feminina nessa questão.

Escrita originalmente para ganhar os palcos, com a pandemia, Sentença se viu obrigada a ser apresentada de maneira virtual. Porém, mais do que uma peça gravada, a diretora optou por transformá-la em uma experiência mais próxima da linguagem do cinema. “Temos um híbrido. Gravamos com as atrizes dentro do teatro da Cia da Revista e descortinamos esse espaço assim como fazemos com a história apresentada”, explica Maria Fernanda Batalha.  E quando os teatros voltarem, o peça-filme ganha os palcos como uma peça teatral.

Em cena, as atrizes Camila Ferrazzano, Camilla Flores, Gabrielle Araújo e Luisa Gouvea remontam uma sentença judicial em três partes apresentadas de maneira não-cronológica. As histórias vão se dando ao mesmo tempo, com passado, presente e suposições se sobrepondo. Fatos e boatos se cruzam por meio de quatro personagens. De um lado, um Dramaturgo consulta uma Advogada a respeito da história que pretende escrever (sobre uma estagiária que pula nua da sacada do apartamento onde mora). Do outro lado, uma Mãe procura entender a mudança de comportamento da Filha após a festa de confraternização do escritório onde estagia, e a Filha tenta desemaranhar sua memória e contar a sua versão dos fatos.

Já que a própria história traz um pouco sobre o processo de Eduardo Aleixo ao escrever, a diretora Maria Fernanda fez uso da metalinguagem também ao fazer um filme que mostre os bastidores de um teatro. “Assim como vemos um teatro desarrumado, exploramos camarim, vemos objetos usados em peças de maneira desordenada, vamos descortinando uma história e mostrando que ela pode ter vários lados, mas que essas peças todas se encaixam num mecanismo cruel contra as mulheres”, explica a diretora.

Mais do que uma avaliação do sistema jurídico brasileiro, o texto fala sobre o impacto do machismo na vida das mulheres, o que acaba gerando identificação. “Quantas vezes, vimos nossa posição de vítima ser invertida por sermos mulheres e não seguirmos o que uma estrutura machista disse que era o correto em relação a maneira como nos portamos, o que bebemos, o que vestimos etc? Quantas mulheres não tentaram identificar uma violência sofrida como algo gerado por seu comportamento? Ou ainda, quantas não tentaram entender ou não souberam nomear estupro?”, questiona Maria Fernanda.

 

SENTENÇA– Até a 20 de dezembro, sexta, sábado e domingo, às 21horas. Duração – 65 minutos. Classificação etária – 14 anos. Grátis (Exibição no youtube.com/caboclas). Dramaturgia – Eduardo Aleixo. Direção – Maria Fernanda Batalha. Elenco – Camila Ferrazzano, Camilla Flores, Gabrielle Araújo e Luisa Gouvea. Assistente de Direção – Maria Jennyfer. Iluminação e Direção de Arte – Kleber Montanheiro. Audiovisual – Guta Batalha. Produção –  Caboclas Produções. Diretora de produção – Gabrielle Araújo.  Apoio – Espaço Cia. De Revista

 

Instagram da peça: @sentencapeca

 

Kyra Piscitelli

Kyra Piscitelli é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e fez pós-graduação em Globalização e Cultura pela Faculdade de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Escreve sobre teatro e arte desde de 2009. Integra os Juris da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e do Prêmio Aplauso Brasil. Ávida por conhecimento, se não está em viagem ou estudo, só há um lugar para achá-la: o teatro!