Um certo Arrabal aterrisa no Teatro Augusta

Ruy Jobim Filho, especial para o Aplauso Brasil (aplausobrasil@aplausobrasil.com)

"O Grande Cerimonial" - Alessandro Hernandez e Amália Pereira O Teatro paulistano tem a sorte e o privilégio da diversidade, onde clássicos modernos e clássicos eternos dividem a cena e traçam suas estratégias múltiplas para acordar um público não menos do que avisado. Em inglês, a palavra moviegoer se aplica muito bem ao cinéfilo que prefere ver seus filmes prediletos na telona. O theatergoer (e essa palavra existe mesmo, não é um neologismo) daqui, de São Paulo, tem, como opções, desde Nelson a Plínio (Marcos), de Neil LaBute a Shakespeare, de Luis Alberto de Abreu a Sade. Mas é um certo Arrabal que dá o cutucão feroz em todo o restante, mexendo com as ideias (agora, sem o acento) e com as plateias (também sem o acento). Arrabal tira o acento.

O (já clássico) Fernando Arrabal (nascido em 1932, no Marrocos espanhol) é o mais recente dramaturgo montado pelo Teatro Kaus Cia. Experimental, grupo que foi trazido de São José dos Campos para a capital pelo diretor Reginaldo Nascimento e pela atriz/jornalista Amália Pereira e que já montou muita coisa boa por essas bandas de cá. Agora eles trazem O Grande Cerimonial para completar o rol e ficar em cartaz na Sala Experimental do Teatro Augusta.

Arrabal não poupa nada, nem ninguém, e o mesmo faz essa montagem do Kaus. Concessão zero. O personagem central de O Grande Cerimonial, o (quase coitado) Cavanosa, um Casanova totalmente às avessas, é o embate em pessoa. Sua alma atormentada luta contra seus fantasmas, suas ilusões e suas sombras. Nascimento aproveita as vertentes do autor de clássicos modernos, como O Cemitério de Automóveis e O Arquiteto e o Imperador da Assíria, para tecer sua encenação em direção ao bizarro da vida humana. O Teatro Pânico de Arrabal tem, no sangue, a tradição do que há de mais bizarro, por exemplo, em autores como o espanhol Valle-Inclán. Mas segue além.

"O Grande Cerimonial" - Alessandro Hanel, Deborah Scavone, Alessandro Hernandez e Amália Pereira

O diretor extrai de seu elenco a força física e emocional para travar o embate entre as luzes e as trevas da natureza humana e do universo claustrofóbico de Arrabal. Daí, o trabalho monumental dos atores, em corpo e voz, no anti-jogo de não-olhares e não-toques, no texto que desmonta e remonta instantaneamente angústias e desejos, tudo ao mesmo tempo. Haja vulcão na Islândia! A preparação corporal intensa contracena com um texto intenso. É o trunfo dessa montagem.

A música da peça embala insânias, nada de condescendências. As bonecas dispostas em cena, tristes e dóceis títeres caídos, foram criadas pela imaginação da artista plástica Suzy Gheler, e dão ao cenário um pingo de desespero, o que faz imaginar uma coleção de vítimas submissas de um Norman Bates de Hitchcock, que busca a poesia no horror. Não, Cavanosa pode não ser um louco, mas ele certamente está em processo e parece se divertir com isso. Daí, o visceral formalismo com que trabalha o encenador, embora alguns momentos do espetáculo, ainda que por um átimo, pareçam sufocantes, instantes quase arrastados. Mas pode ter sido uma apresentação em si, ou é parte da angústia declarada em cena.

Amália Pereira faz duas personagens antípodas, Sil e Lis (antípodas na mente do protagonista Cavanosa, diga-se de passagem). A candura de uma contrasta com a tensão sexual da outra, ou vice-versa. A atriz elabora corpo e voz com maestria, criando um ar pungente para ambas as personagens. Da mesma forma, o eficiente Alessandro Hernandez nos providencia em cena um Cavanosa atordoado pela mãe (Deborah Scavone, muito bem no papel), pelas bonecas que ele usa como objetos de um não-sexo e, finalmente, pelo conjunto das mulheres de verdade, no caso, vividas por Sil e Lis.

Não, Cavanosa não é um fóbico, não teme as mulheres. É apenas um atormentado, um enjeitado que se delicia com xingamentos e afasta veementemente um elogio, qualquer que seja, venha de onde vier. É dureza, esse personagem. Arrabal não mede nada, ele despeja torrentes, o tempo todo, infatigavelmente. Como um vulcão na Islândia.

Assim, a montagem de Reginaldo Nascimento faz jus a essa vertente do Teatro Pânico criado por Arrabal, por Alejandro Jodorowsky e por Roland Topor, os três papas do lúdico, do gozoso e da mais absoluta modernidade. O Kaus despeja esse universo atormentado para plateias reduzidas, na pequenina Sala Experimental do Teatro Augusta (alguns já a batizaram de “Augustinha”), exatamente para fornecer o desespero sem concessão, em pura claustrofobia. Boa escolha.

A criteriosa iluminação (de Vanderlei Conte) é precisamente parca, com poucos focos gerando sombras distorcidas e gigantes, expressionistas mesmo, e alguns contra-luzes que provocam nossos olhos, para enredar os personagens e os espectadores num mundo distorcido, opaco e sem saída, como prega cada linha de diálogo de “O GRANDE CERIMONIAL”. Mas, afinal, o que é este “grande cerimonial” do título? Melhor a plateia descobrir por si própria, pois cada um vai tecer sua impressão sobre o que não se deve decifrar muito, o que também poderia incorrer num belo desacerto. Melhor assistir à peça.

Depois de trabalhar autores como Plínio, Jorge Andrade, Millôr, Aimar Labaki, Luis Alberto de Abreu e de trazer e traduzir em workshops, montagens e livros dramaturgos como Santiago Serrano, Marco Antonio de La Parra e Edílio Peña (entre outros, no vitorioso projeto “Fronteiras”, fomentado pela Prefeitura), o Kaus atinge novo patamar. Eles trouxeram também o próprio Arrabal ao Instituto Cervantes, para palestras, e agora submetem São Paulo a um texto inédito do espanhol, cutucando onças com varas curtas, trazendo novidades e não parando um instante sequer. Que venham as novidades, que certamente virão. Por enquanto, o theatergoerpaulistano vai decifrando o cerimonial, no Augustinha. Talvez esse cerimonial seja mesmo o próprio teatro, em si, na sua brutalidade de luz, de texto, de atores e uma plateia (agora sem acento).

SERVIÇO

“O GRANDE CERIMONIAL”

Texto: Fernando Arrabal

Direção: Reginaldo Nascimento. Com o Teatro Kaus Cia. Experimental

Sala Experimental do Teatro Augusta – Quartas e Quintas, 21h (100 min.)

Recomendado para: 14 anos

Ingressos a R$ 30 (estudantes, maiores de 60 anos e classe teatral: 50% desconto) – estreou em 12 de maio. Até 1 de julho.

Telefone: (11) 3151-4141

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.