Um dueto pessoal

Michel Fernandes, do Aplauso Brasil (michel@aplausobrasil.com.br)

Bel Kovarik e Marcos Damigo em  "Dueto Para Um"
Bel Kovarik e Marcos Damigo em “Dueto Para Um”

SÃO PAULO – Quando decidi assistir ao espetáculo Dueto Para Um, de Tom Kempinski, dirigido por Mika Lins, em cartaz às quintas e sextas no Teatro Eva Herz, esperava algo que me surpreendesse. Entretanto encontrei mais, um dueto de rara sensibilidade, composto unicamente para o privilegiado que o assiste, pérola a inquietar nódulos que não reconhecemos como nocivos até então, mas acionados, doravante, à nossa pauta do dia.

Seis sessões de terapia, seis duelos entre uma paciente acometida de esclerose múltipla, violinista virtuose que saiu de cena e se encontra numa cadeira de rodas – interpretada, com todas as notas que compõe a mais bela sinfonia, por Bel Kovarik – e um psiquiatra que intervém na medida exata a evocar da paciente variações de reflexões sobre o mesmo tema. O ator Marcos Damigo executa a tarefa de interpretar esse lacônico terapeuta que atinge sua humanidade mais aguda quando revela seu incômodo com o modo de agir da paciente.

Mika Lins segue a simplicidade na condução de Dueto Para Um realçando as nuanças dessa relação que, além de paciente e terapeuta, é a provocação em se imergir nas camadas do que se é, em oposição ao que se imaginava ser.

Bel Kovarik ganhou o Prêmio APCA de Melhor Atriz com "Dueto Para Um"
Bel Kovarik ganhou o Prêmio APCA de Melhor Atriz com “Dueto Para Um”

A estrutura cenográfica criada por Cássio Brasil, uma espécie de arena mecânica que gira sutilmente ao decorrer das cenas, dá a dupla dimensão de ringue, em que se dá esse duelo, e púlpito onde a paciente representes o tempo todo, até que o médico a chame à realidade. A rotatividade lenta da estrutura quebra o que parecia imutável como o é na vida da gente: nossas transformações são perenes, embora paulatinas.

Originalmente criada por Marcelo Pellegrini, a trilha da peça traz os toques que, possivelmente, associamos com as melodias que compõe a alma da protagonista: um dorido lamento em veste de gala.

Ficha técnica:

Texto – Tom Kempinski.

Tradução – Ana Saggese.

Direção – Mika Lins.

Elenco – Bel Kowarick e Marcos Damigo.

Diretor de Cena – Tiago Moro.

Cenografia – Cássio Brasil.

Iluminação – Caetano Vilela.

Trilha sonora – Marcelo Pellegrini.

Fotos – Roberto Setton.

Produção Executiva – Roberta Koyama.

Serviço:

Dueto Para Um

TEATRO EVA HERZ – Avenida Paulista 2073 – Bela Vista (metrô Consolação) – Fone: (11) 3170-4059. Acesso para deficientes físicos. Bilheteria – De terça a sábado das 14 às 21 horas e domingo das 12 às 19 horas. Capacidade – 168 lugares. www.teatroevaherz.com.br. Duração – 90 minutos. Espetáculo recomendável para maiores de 14 anos. Temporada – Quintas e Sextas-feiras às 21 horas. Ingressos– R$ 40,00 e R$ 20,00 (meia-entrada). Ingressos pelo site www.ingresso.com.br ou pelo telefone (11) 4003-2330. Até 29 de março.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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