Um grande artista atinge a eternidade em sua obra

Michel Fernandes, especial para o Último Segundo (michel@aplausobrasil.com)

Pina Bausch em <i>Café Müller</i> (1978)
Pina Bausch em Café Müller (1978)

 

Artistas são imortais? Nem todos, apenas aqueles cuja alma transborda em sensibilidade e, assim, deixam um rasto de magnitude que embevecem almas extemporâneas às criações artísticas que deixam como legado às futuras gerações. Com tal arrebatamento e certeza de que ,mesmo morta tão jovem (68 anos apenas), Pina Bausch permanecerá eterna em sua arte, ficamos ao assistirmos tão belo programa – Café Müller e A Sagração da Primavera – apresentado na Temporada de Dança 2009 do Teatro Alfa.

Há algo de muito interessante nessa dupla de espetáculos que compõem essas duas coreografias que nos são apresentadas, Café Müller, criação de 1978, para seis bailarinos, e A Sagração da Primavera, de 1975, dançada por 42 bailarinos.

Até mesmo por sua cenografia claustrofóbica (Rolf Borzik) – um café cinzento e repleto de cadeiras. Parece fechado há tempos e, portanto, empoeirado e abandonado -, Café Müller evoca um aspecto mais apurado teatralmente em sua concepção. Quando de sua criação, em 1978, Pina Bausch, entre outros temas, queria discutir a questão do afastamento que as pessoas se entregavam, sem, ao menos, saber por que usam os movimentos. E, assim, ela uniu seis bailarinos “presos” naquele café, exteriorizando em movimentos bastante discretos, isentos de coreografia evidente, obrigados a se aproximarem e a relacionar-se. A coreografia quase isenta, com uso de diversos símbolos representativos e as repetições que delineiam todo o seu trabalho, como tão bem explicita Ciane Fernandes em seu livro Pina Bausch e o Wuppertal Dança-Teatro, além dos espasmos evocados pelas sensações interiores que o âmago dos personagens, prenhes de lembranças de seus criadores originais, transpiram em movimentos nos bailarinos-intérpretes.

Já em A Sagração da Primavera, a atmosfera primitiva da lenda russa que inspirou Igor Stravinski a criar essa magnífica obra de força indiscutíveis, Pina coloca em cena, sobre um palco de lama que, aos poucos, mescla-se aos corpos dos 42 bailarinos, um ritual de oferenda ao deus da primavera que, em troca da imolação de uma aldeã, garante à aldeia farta colheita. Estamos diante de uma orquestra de corpos em movimentos eletrizantes a nos aproximar do mais primeiro estágio de nossos instintos. E um deles, nosso primeiro deles, o instinto vital, é negado a uma das jovens: para o bem da aldeia ela terá de morrer. E o conflito avoluma-se a partir daí. E somos encantados por esse ritual. Nos identificamos nessa busca pela sobrevivência e quando a luz se apaga no palco, outra se acende em nosso pensamento. E ela diz, bem alto. SIM, PINA É ETERNA!

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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