Um monumento a Dostoiévski – Parte 2

Michel Fernandes, do Aplauso Brasil (Michel@aplausobrasil.com)

Crítica de Michel Fernandes ao espetáculo O Idiota – Parte 2

"O Idiota - Uma Novela Teatral"

O segundo dia dessa imersão ao universo de O Idiota e, por consequência, ao de Dostoiévski, concentra o segundo e terceiro capítulos desta “novela teatral” e inicia com um inquieto desfile dos atores em busca de seus personagens. Depois de acomodado o público, os atores dirigem-se para seus desnudos nichos-camarins e, como na primeira noite, soltam fragmentos de frases, trechos de canções, realizam pequenas ações físicas. Só que desta vez o público já criou laços de simpatia, admiração, estranhamento e outras sensações em relação àquelas personagens e consegue enxergar, nesses fragmentos de vida, minúcias que no primeiro dia de O Idiota passaram despercebidas.

Cabe à Sylvia Prado a tarefa de resumir os acontecimentos da noite anterior, o que faz com clareza e talento, situando até o espectador que deixou passar alguma informação que seja relevante para a compreensão total do espetáculo. O recurso narrativo adotado por Cibele Forjaz foge ao lugar-comum da ação de resumir, importando, também, um desenho cênico que se assemelha ao processo de rebobinar um filme para voltar a assisti-lo.

A sequência de cenas posteriores ganha a verve poético-filosófica num diálogo exuberante em que temas como a religiosidade, a inveja, o apego pelo dinheiro, o desejo mundano, as incertezas do amor e, sobretudo, a transmutação de todas as paixões humanas na singela e pura compaixão dão o tom de bela coreografia que mescla belas imagens a ideias de riqueza inimaginável.

A cena passada na casa de Ragôjan (Sergio Siviero), quando Míchkin (Aury Porto) vai visitar o amigo e pedir que este não o considere um rival, pois nesse tempo que viveu com Nastássia (Luah Guimarãez), descobriu que o que imaginava ser amor é, simplesmente, paixão. Os laços fraternos de amizade desinteressada que já se esboçava na primeira cena do primeiro dia de representação são reforçados nesta cena que é de humanidade despudoradamente bela.

Quando Míchkin deixa a casa de Ragôjan, depois da acalorada e poética cena em que questionam a existência e o significado de Deus, trocando os dois, inclusive, amuletos de proteção, dá-se a sequência onírica que antecede o ataque epiléptico do príncipe, em que personagens que povoam o universo da imaginação e aqueles mais próximos da realidade cotidiana. Dentre os personagens dessa alucinação onírica está a Besta do Apocalipse (personagem interpretado com total força e exuberância por Vanderlei Bernardino) que narra trechos do livro bíblico do Apocalipse, mesclado a elementos da vida profana entre Ragôjan e Nastássia, entre outros. No meio desses episódios, Ragôjan surge para esfaquear Míchkin, porém desiste frente ao impacto da crise epilética do príncipe.

"O Idiota - Uma Novela Teatral"

O excessivamente zeloso Lhêbediev (Vanderlei Bernardino, mais uma vez em vigorosa atuação) leva o, doravante, amigo, Míchkin para passar o verão em Pávlovski e aproximá-lo de Nastássia e Aglaia (Lúcia Romano), filha de Lisavieta (Sylvia Prado) e de quem, Lhêbediev acredita, o príncipe esteja enamorado.

O clã do general Ívolguim (Luís Mármora), formado pelos excelentes Freddy Allan e Sílvio Restiffe, respectivamente, Kólia e Gánia, além de Lisavieta e Aglaia – mãe e filha- visitam Míchkin na casa de veraneio, mas eis que revoltado com a récita do poema “O Cavaleiro Pobre”, de Púchkin, por Aglaia, Gánia saca um revólver e ameaça a todos. Essa atitude deixa claro o desequilíbrio desesperado que se apossa de um personagem cujo foco é ser rico para sentir-se feliz.  Depois da atitude do filho, o general percebe que errou profundamente ao consolidar a formação da personalidade de seu filho, sendo o ator responsável por uma emocionante linha declinante da segurança anterior de seu personagem para a atual inadequação em que se encontra.

Depois de alguns episódios em que a atriz Lúcia Romano evidencia o jogo de vontades e contra-vontades de sua Aglaia e da revelação de Míchkin da compaixão em lugar de amar Nastássia, chega o momento em que a filha de Lisavieta – num primeiro momento um tanto abalada porque sua única filha casará com um “idiota”, mas depois feliz com a ideia – apresentará Míchkin à sociedade e esta, além de o rejeitar, ameaça excluir mãe e filha de seu círculo caso Aglaia se case com o príncipe.

A festa de noivado é um baile de máscara em que a “turma do funil” dos altos-burgueses é um profano e bufônico bloco carnavalesco maculando de hipocrisia o que deveria ser uma sagrada festa de noivado.

Deixo ao público o prazer de descobrir o desenlace da trama, só ressalto a alta voltagem com que dá vida à fatal Nastássia Filípovna e, retomando a predição que a cigana Maria Padilha fez à Míchkin: “Cuidado, o amor pode ser uma sentença de morte”.

*A crítica é a partir da perspectiva de quem assiste O Idiota em dois dias

Um monumento a Dostoiévski – Parte 1

Ficha Técnica resumida

Direção: Cibele Forjaz
Texto: Fiódor Dostoiévski
Cenário: Laura Vince

Trilha Sonora: Otávio Ortega
Elenco: Aury Porto, Fredy Allan, Luah Guimarãez, Lúcia Romano, Luís Mármora, Sergio Siviero, Silvio Restiffe, Sylvia Prado, Vanderlei Bernardino
Indicação:
Maiores de 14 anos

O Idiota

Espaço Tom Jobim. Rua Jardim Botânico, 1.088. Jardim Botânico. Rio de Janeiro. Tel. (21) 2274-=7012. 70 lugares. Segundas e terças-feiras, espetáculo completo com dois intervalos (duração de 6h30), às 17h30. Sábados (Parte 1), 17h30, e domingos (Parte 2 e 3), 17h30.R$20 a R$60. http://oidiotateatro.blogspot.com/

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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