Um pouco de 2009 no Teatro

Michel Fernandes, especial para o Último Segundo (michelfernandes@superig.com.br)

 

<i>Veleidades Tropicaes</i>, não consegui assistir apesar das recomendações
Veleidades Tropicaes, não consegui assistir apesar das recomendações

 

Começo esse primeiro artigo que propõe estabelecer destaques da temporada teatral de 2009, em São Paulo sobretudo, com um prévio pedido de desculpas a muitos dos espetáculos que não entrarão aqui porque não os assisti. É que, com a benção de Dionísio, a cada ano aumentam os números de espetáculos que estreiam aqui na capital.

 

Estamos habituados a assistir os mais interessantes espetáculos numa das unidades do SESC, que valoriza, principalmente, espetáculos que se caracterizam pela pesquisa de linguagem e que, muito provavelmente, não seriam viáveis se dependessem apenas de leis de incentivo fiscal que colocam na mão dos diretores de marketing o poder de decisão dos contemplados. Caso de Inventário – O Que Seria Esquecido se a Gente Não Contasse, produção dos Doutores da Alegria do Rio de Janeiro, sob direção de Andréa Jabor e Beatriz Sayad, que reproduziu no palco algumas das situações que a equipe de clowns enfrenta no dia-a-dia em seu trabalho no hospital.

A Unidade Provisória do SESC da Avenida Paulista trouxe um inusitado cachorro de rua, espécie de mendigo, que realiza sermões à moda do Padre Vieira, tal era o mote de The Cachorro Manco Show que revelou um dramaturgo bastante interessante (Fábio Mendes), um ator extremamente competente (Leandro Daniel Colombo), alicerçados pela direção madura de Moacir Chaves que já havia dirigido o Sermão da Quarta-Feira de Cinzas, do Padre Antonio Vieira, com interpretação marcante de Pedro Paulo Rangel, em 1994.

Pouco divulgado, até por mim, Quem Não Sabe Mais Quem é, O Que é e Onde Está, Precisa se Mexer, trabalho resultante da pesquisa que a Cia. São Jorge de Variedades,, nesses nove anos de existência dirigida artisticamente pela magnífica atriz Georgette Fadel, imergiu na obra do dramaturgo alemão Heiner Muller. O fruto de tal pesquisa tomou o quarteirão de onde fica a sede da trupe (Barra Funda) e, também, o espaço interno da sede, sem focos de luz, utilizando a criatividade e a luz da tarde – o espetáculo começava 15h e, durante a semana, meio-dia – para desenvolver um diálogo entre as duas obras, a matriz e a gerada, seguindo o mesmo esquema utilizado por Müller na composição de suas obras, relendo clássicos para os colocar em conformidade com o aqui e agora. DSC05995No mesmo dia que vi a peça da São Jorge, vi Raptada pelo Raio da Cia. Livre, vizinha de bairro da São Jorge, que chamou mais a atenção por sua linguagem cênica em que a diretora Cibele Forjaz soube utilizar tecnologias de vídeo, som e, ao mesmo tempo, empregou recursos simples para inserir o público á ação.

Elias Andreato mostrou no solo Doido, com textos que iam de Fernando Pessoa a William Shakespeare, que a potência de um ator que domina seus instrumentos interpretativos – como a dicção, modulação vocal, entendimento do que diz, contenção, controle e emissão pungente e clara das emoções que o texto lhe pede – são elementos primordiais para o acontecimento de um grande espetáculo. 

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

1 comentário

Leave a Reply

Seu email não será publicado

*