Um Shakespeare de bem dosada contemporaneidade

Afonso Gentil, especial para o Aplauso Brasil

Antes de ocupar-nos das agradáveis surpresas proporcionadas pelo diretor Val Pires, à testa de Medida Por Medida, de Shakespeare, atual montagem do Galpão do  Folias, algumas reflexões sobre a ala do teatro alternativo paulistano, auto denominada “radical”.  Com a ressalva de nossa parte de não sermos contra tal atividade, mas das  grandes deformidades em conseqüência.

Hoje em dia, está cada vez mais penoso ao espectador  assíduo de teatro assistir às investidas pretensamente modernas de certos “coletivos” em ação. Com o agravante de  um setor da crítica enquadrá-las  distraidamente (para dizer o menos, já que a crítica tem o compromisso de formadora de opinião) no pódio do “teatro do futuro”, ai de nós!

Pois está comprovado que, por via de regra,  o resultado do radicalismo formal adepto do “aqui  agora”, “nós é que sabemos das coisas”, só faz reproduzir maneirismos estéticos que ao longo do século XX tiveram  o  mesmo e merecido fim: a morte na 3ª. ou 4ª. braçada! Por que, como bem diz Luiz Carlos Merten,  o mais arguto crítico de cinema que temos a sorte de ter por perto, “nada sobrevive a uma história mal contada”.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                               

                                    O FOLIAS SAI DO SUFOCO

Decididamente as três últimas montagens do Folias na sua sede à Rua Ana Cintra, após o vigoroso e de contundente poesia Querô, despertaram mais profundas decepções que uns parcos elogios. Faltou “química”, como se costuma dizer no jargão teatral. Lamentável,  quando se sabe o quanto seu líder, Marco Antonio Rodrigues, costuma fazer render um elenco de tão invejável nível à sua disposição.

O primeiro trunfo do já veterano ator do Folias, Val Pires, sempre comprometido com o ideal político reivindicador do Grupo,  foi eleger  a tradução/adaptação de Fábio Brandi Torres que levou as palavras de Shakespeare às delicias de uma contemporaneidade bem  enquadrada e  bem educada, apesar da ação  carregada de tosco erotismo. Diz Fabio no programa :“afinal, se um diálogo não cabe na boca de um ator, também não vai caber no ouvido da platéia”, com resultado nota 10!

Por sua vez, Val, novato na função, mas não nos segredos do palco, revelou uma sensibilidade em sintonia com o humor inglês, extraindo  com freqüência o riso da platéia, com ótimo timing de comédia. A atemporalidade é jogada com eficiência nos desempenhos, nos figurinos e no cenário (este mais fiel à época), dando uma lição aos “xiitas” lá de  trás.

Apesar da displicência do programa da peça, omitindo a relação personagens-intérpretes, não podemos deixar passar em branco a boa impressão causada pela dupla que faz o Duque e Lúcio, tratada clownescamente, com elegância … à inglesa!

Você quer aprimorar prazerosamente sua cultura teatral? Medida por Medida é o seu endereço.

 MEDIDA POR MEDIDA/ Galpão do Folias/ Rua Ana  Cintra, 213/ 96 lugares/ fone 3361-2223/ estacionamento ao lado/ Metrô Santa Cecília/ 5ª. a sábado às 21h, domingo 2Oh/ R$ 30,00/14 anos/ 100 minutos/ até 26-9.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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