Um Verão Familiar: novo trabalho da Cia. dos Inquietos

Maurício Mellone, editor do Favo do Mellone site parceiro do Aplauso Brasil (aplausobrasil@aplausobrasil.com)

Ed Moraes em "Um Verão Familiar"

Com texto de João Fábio Cabral e direção de Eric Lenate, o grupo esmiúça a estrutura de uma família por meio do olhar e da memória de Júlio, o filho, vivido por Ed Moraes

SÃO PAULO – Num cenário de poucos elementos,  apenas uma mesa de jantar com cadeiras e um grande tonel de água, Um Verão Familiar, trama de João Fábio Cabral em cartaz no SESC Belenzinho até o dia 9 de setembro, procura analisar em minúcias os bastidores de uma família, constituída de quatro membros: o pai ausente e ao mesmo tempo opressor, a mãe submissa e superprotetora dos rebentos, a filha ingênua, vítima do progenitor, e o primogênito: um garoto sensível, amante das artes e por ser o oposto do pai é sistematicamente oprimido no seio familiar.

No entanto, o público vai descobrindo, aos poucos, como funciona aquela família por meio do relato de Júlio, que retorna ao lar anos depois e relembra o que viveu na infância e adolescência ao lado da família. Como tudo é fruto da memória do rapaz, fica a dúvida do que realmente aconteceu naquele lar, o que é realidade e o que é fantasia dele.

Depois de um grande silêncio, Júlio — numa interpretação tocante de Ed Moraes —, até então submerso no tonel de água, vem à tona e começa seu relato. Inicia sua apresentação dizendo-se ser um jardineiro, amante das flores e das artes. Aos poucos diz que sua paixão pela música vem da infância e suas reminiscências afloram.

Paralelamente ao relato do personagem, as cenas se desenrolam mostrando os bastidores e as torturantes relações daquela família, principalmente a opressão exercida pelo pai, interpretado por João Bourbonnais. Como eram de temperamentos opostos, o garoto foi sempre o mais visado e fustigado pelo pai, que também oprimia a mulher (Lavínia Pannunzio) e a filha (Renata Guida), esta inclusive violentada sexualmente.

Elenco de "Um Verão Familiar" - foto de Gustavo Porto

Um detalhe fundamental da direção de Eric Lenate (que também assina a cenografia) é o tom da articulação dos atores: todos falam baixo e pausadamente, mesmo nas cenas em que os ânimos se alteram. Talvez para deixar clara a opressão vivida naquele lar. Como Júlio rememora o que viveu, a trama segue uma linha não cronológica e o limite entre real e ficção é tênue. Somente depois da metade do espetáculo é que o público percebe que Júlio volta para o lar de sua infância e está ali vivenciando momentos de sua história de vida.

“Em memória de tudo aquilo que ainda nos atormenta”.

Esta frase é projetada ao final do espetáculo e serve como síntese da obra de João Fábio. A interpretação do elenco é o grande destaque de Um Verão Familiar: difícil ressaltar a atuação de um ator em particular, todos estão afinadíssimos e em perfeita sintonia. Destaque também para a iluminação de Aline Santini e os vídeos de Fabi Loyola que interagem com a trama, tornando-se elementos crucias para a narrativa.

Sendo este o segundo trabalho da Cia dos Inquietos — a estreia foi em 2011 com o texto do carioca Jô Bilac, Limpe todo o sangue antes que manche o carpete — o público pode esperar por montagens renovadoras e inquietantes no futuro, pois o grupo mostra vigor e critério apurado em suas produções.

Roteiro:

Um Verão Familiar. Texto: João Fábio Cabral. Direção e cenografia: Eric Lenate. Elenco: Ed Moraes, João Bourbonnais, Lavínia Pannunzio e Renata Guida. Assist. de direção e direção de palco: Diego Dac. Iluminação: Aline Santini. Figurino: Rosângela Ribeiro.Trilha sonora original: Fernanda Maia e Beatriz Navarro. Fotos: Gustavo Porto.

Serviço:
SESC Belenzinho, Rua Padre Adelino, 1000 – Belenzinho/SP – Tel: (11) 2076-9700. Horários: quinta a sábado às 21h30, domingo e feriado/7 de setembro às 18h30. Ingressos: R$ 24,00, R$ 12,00 (usuário matriculado, +60 anos, estudantes e professores da rede pública) e R$ 6,00 (trabalhador no comércio e serviços matriculado). Classificação: 16 anos. Duração: 1h20. Temporada: até 9 de setembro de 2012.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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