Crítica: Uma aula de história no teatro

Kyra Piscitelli, do Aplauso Brasil (kyra@aplausobrasil.com)

"O Jardim das Cerejeiras". Foto: divulgação
“O Jardim das Cerejeiras”. Foto: divulgação

SÃO PAULO – A Cia. Elevador consegue tirar o espírito regional e universal do autor russo Anton Tchekhov na montagem do espetáculo O Jardim das Cerejeiras. A peça do início do século XX foi montada pela primeira vez em 1904. A importância histórica dela é mostrar uma aristocracia decadente, que ociosa não sabe trabalhar e quer viver de privilégios – como sempre o fez. Mas, uma Rússia diferente e em transformação oferece outras cartas ao jogo. Um retrato de um país que em 1917 faria a Revolução Socialista.  

A montagem da Cia., dirigida por Marcelo Lazzaratto, é interessante exatamente nesse ponto: traz uma montagem limpa de Tchekhov. E com isso, o espectador viaja para a Rússia do início do século XX, podendo ter no teatro uma aula de história interativa.

A direção de arte de Lu Bueno é de tirar o chapéu. São 200 quilômetros de fios que remontam um cenário de frio e neve. O chão todo em branco também reforça essa ideia de uma Rússia gelada. Os figurinos são hipnotizadores. Trabalhados em tons do bege ao marrom parecem ter sido cuidadosamente escolhidos em uma palheta de cores.

"O Jardim das Cerejeiras". Foto: divulgação
“O Jardim das Cerejeiras”. Foto: divulgação

Além disso, o cenário traz algo de frágil, o que tem tudo a ver com a realidade que vemos ali no palco. Em cena, personagens que representam todas as classes da época. Para representar esses personagens Lazzaratto usa um artifício com o qual não concordo. Os personagens, em partes pontuais, fazem outros personagens – do passado por exemplo – mas essa troca fica um pouco confusa e credito o fato a interpretação de alguns em cena.

Mas, tirando esse senão, o espetáculo leva a alma de Tchekhov. E se inovar de forma bem sucedida é difícil, trazer a alma de um clássico é igualmente raro. Nessa montagem de O Jardim das Cerejeiras conseguimos entender a Rússia que, de certa forma, determinou muito da história do século XX.

Na peça, a conhecemos politicamente, economicamente e culturalmente. A história é clássica também por evidenciar questões da condição humana que, infelizmente, parecem inevitáveis. Um exemplo é a exploração de quem tem menos e a vontade do oprimido virar opressor.

O espetáculo se passa em plena Belle Époque (Bela Época em francês). No período a Europa vivia uma falsa euforia. Festas, suposta paz e invenções que facilitaram a vida de todos escondiam o real clima de tensão. Atrás do culto à beleza, uma grande tristeza.

Assim é a história de Tchekhov tão bem retratada pela Cia. Elevador nesse panorama. As protagonistas voltam de Paris – sim esgotam seu dinheiro e voltam à Rússia viver em sua enorme propriedade. Ali vivem empregados que seguem seu DNA de servos, mesmo sendo período sem escravos. Um aristocrata que só sabe jogar, beber e finge ter tino para os negócios….

Na outra ponta, uma agregada da família aristocrata, que mesmo adotada, não consegue deixar de servir.  O filho e neto de escravos que luta para crescer na vida e vingar o que os pais passaram. Um intelectual desses que aparece na peça como o de ideias lunáticas que não se forma nunca e não pensa em trabalhar. A filha que volta de Paris (efervescência dos ricos) cheia de sonhos e ilusões e sua mãe – que de volta com ela – não sabe como é ser pobre, mas tem que se acostumar com isso.

"O Jardim das Cerejeiras". Foto: divulgação
“O Jardim das Cerejeiras”. Foto: divulgação

Os hábitos de uma aristocracia estão todos lá: do apego ao status ao tomar chá. A propriedade vai a leilão e a família que nunca trabalhou se vê perdida em meio a empréstimos e dívidas. A propriedade onde um dia cresceram cerejeiras, não produz mais. Ora em um mundo de homens livres, desaprenderam a cultivá-las diz um servo de DNA. O mesmo servo aparece, em outro momento, dizendo que aquele é um mundo estranho, já que não se sabe quem deve servir e ser servido.

Esse é o retrato da Rússia na época – de um lado uma aristocracia falida e que não se vê ( vive de aparência) e nem sabe bem o que fazer. Foi fértil com escravos, mas já não é mais. E de outro lado, o mito da meritocracia capitalista: em que se prega esforço e trabalho  como sinônimo  da dignidade humana.

Tempo de crise, em que antigos servos não acharam seus lugares no mundo livre; aristocratas ainda estão presos a favores; e uma burguesia busca enriquecer por meio da exploração – querendo oprimir, quem um dia os oprimiu.

O Jardim das Cerejeiras mostra que teatro também é aprender.

Para roteiro:
 O JARDIM DAS CEREJEIRAS – Estreia dia 22 de março, sábado, às 19 horas, no Teatro do SESC Bom Retiro. Direção – Marcelo Lazzaratto. Elenco – Carla Kinzo, Carolina Fabri, Leo Stefanini, Marina Vieira, Pedro Haddad, Rodrigo Spina  e Wallyson Mota. Música Original – Rafael Zenorini. Iluminação – Marcelo Lazzaratto.Direção de Arte – Lu Bueno. Duração – 120 minutos. Espetáculo recomendável para maiores de 14 anos.Temporada – Sexta-feira às 20 horas, sábado às 19 horas e domingo e feriado às 18 horas. Ingressos – R$ 24,00 (inteira); R$ 12,00 (usuário inscrito no SESC e dependentes, +60 anos, estudantes e professores da rede pública de ensino); R$ 4,80 (trabalhador no comércio de bens, serviços e turismo matriculado no SESC e dependentes). Até 11 de maio.

 O espetáculo fará apresentação extra em 1º de maio, quinta-feira, às 18 horas. 

 SESC BOM RETIRO – TEATRO – Alameda Nothmann, 185. Telefone: (11) 3332-3600. Capacidade – 291 lugares. Horário de funcionamento da Bilheteria – De terça a sexta-feira das 9 às 20h30, sábado das 10 às 18h30 e domingo e feriado das 10 às 17h30 (ingressos à venda em todas as unidades do SESC).  Aceitam-se cheque, cartões de crédito (Visa, Mastercard, Diners Club International) e débito (Visa Electron, Mastercard Electronic, Maestro e Redeshop). Estacionamento automatizado com 200 vagas. Informações sobre outras programações 0800-118220 ou www.sescsp.org.br.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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