Vivendo de recordações

Crítica da peça Recordar é Viver por Michel Fernandes (michel@aplausobrasil.com) publicada na edição de 10 de fevereiro de 2011 no jornal Diário de São Paulo

Suely Franco e Sérgio Britto na peça "Recordar é Viver"

Em muitos momentos o espetáculo Recordar é Viver nos leva ao riso. Não por situações cômicas, nem por piadas certeiras, daquelas que atingem o alvo, mesmo que a seta seja de extremado mau-gosto. Não, esse não é o caso do texto de estreia do jornalista e historiador Hélio Sussekind, mesmo que não alcance satisfação plena. O riso vem por reconhecermos em cena o ridículo em nós mesmos. Quão estáticos estamos por medo do desconhecido, do que está do outro lado do muro das convenientes e, supostamente seguras, recordações?

Com um singelo mote temático – podemos, inclusive, chamar de óbvio -, a peça se propõe a lançar um olhar para os atuais valores familiares, tomando como fio condutor a história de Henrique (José Roberto Jardim, em boa composição), um homem de 30 anos que deseja ser escritor, mas não consegue avançar nos planos de sua vida por estar preso às repetidas recordações de seus pais.

Contrapondo o caráter sonhador de Henrique está Carlos (Camilo Bevilacqua), o irmão mais velho, um pouco auto-piedoso pro meu gosto – o que aumenta a força carismática do

José Roberto Jardim, Suely Franco e Sérgio Britto em "Recordar é Viver"

caçula e naufraga a sua própria –, que é racional, ligado aos bens matérias e reclama do pai, desde sempre, demonstrar maior afeto a seu irmão. A interpretação de Bevilacqua/ Carlos convence a ponto de levar o espectador a sair em defesa de Henrique, deixando num plano secundário a reflexão sobre as desvantagens de repetir sempre o mesmo ciclo de ação e reação, o que causa o primeiro desequilíbrio do texto.

Paula (Ana Jansen) fica incumbida de ser uma espécie de grilo falante que, como na história de Pinóquio, serve como consciência, se bem que não bem definida de quem, afirmando ser a namorada do irmão caçula, Bruna (Anna Cecília Junqueira), a única ponte que liga Henrique ao mundo real. Talvez a falta de aprofundamento que marca as citadas personagens, configurem no segundo ponto que faz Recordar é Viver desequilibrar.

Ana e Alberto, respectivamente Suely Franco e Sérgio Britto, são os pais que, mesmo sem querer o mal do filho, o enclausuram naquele sistema familiar doente. Como os dois fulguram em suas interpretações não é difícil ganharem a empatia do público e afastarem, por sua vez, quaisquer reflexões acerca da duvidosa formação que deram a Henrique. Aos 30 anos, o rapaz não aprendeu a ser individuo, ter vontade própria a ponto de sair da passividade que está. Ele é um reprodutor dos maus hábitos familiares, que parece não ter desejos próprios transformadores.

Esse mote temático pode se reverter num questionamento sobre a própria encenação proposta por Eduardo Tolentino de Araújo, desde sempre preocupado em decodificar os signos dispostos no texto, pelo dramaturgo, em imagens claras e objetivas, dissecando o sentido que vê na peça para o espectador. Mas ele não busca recordações de uma metodologia de apresentar um espetáculo num terreno que lhe é macio por puro comodismo. Decerto ele cria uma escrita cênica convencional, sem rasgos para um diferente discurso estético, mas há nele uma arte difícil, talvez mais difícil que uma proposta não usual de verticalizar um texto, a arte de ser simples, sobretudo num texto oscilante como o é “ecordar é Viver.

serviço

Recordar é Viver

Até 27/02. Sextas e sábados, às 21h e domingos, às 19h. Duração: 85 min.
Não recomendado para menores de 14 anos
R$ 32,00 (inteira); R$ 16,00 (usuário matriculado no SESC e dependentes, +60 anos, estudantes e professores da rede pública de ensino). R$ 8,00 (trabalhador no comércio e serviços matriculado no SESC e dependentes).
320 lugares.
Teatro Anchieta do SESC Consolação
Rua Dr. Vila Nova, 245
Tel: 11 3234-3000

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

No Comments Yet

Leave a Reply

Seu email não será publicado